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Rodrigo Simonsen e sua nova editora

Rodrigo Simonsen.

Rodrigo Simonsen.

Enveredar-se pelo mercado literário no Brasil não é das ações mais fáceis: somos uma nação que ainda se acostuma a ler, não no sentido meramente alfabético, mas na compreensão, no desmembramento das frases e palavras. Para Rodrigo Simonsen, formado em Propaganda e Marketing na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), este é um desafio que vale a pena. Após atuar por um par de anos como editor-assistente da Realejo Edições, o jovem santista de 31 anos decidiu seguir seus próprios passos no ramo editorial e criou a Editora Simonsen.

A empresa, sediada em sua própria casa, já começa com um cast respeitável: entre seus autores estão Mário Vargas Llosa, Jack Donovan, Andy Nowicki e Robert Musil.

O CulturalMente Santista bateu um papo com Simonsen para saber mais sobre a empreitada, que terá lugar para escritores santistas, garante. “Já está sendo produzida a biografia definitiva de José Bonifácio, escrita pelo professor Rafael Nogueira; também está em fase inicial a biografia definitiva do maestro Gilberto Mendes, escrita pelo poeta e ensaísta Flávio Viegas Amoreira”. Confira:

Como surgiu a ideia de criar sua própria editora?
Acredito piamente no sentido clássico dado à palavra “vocação”, aquele chamamento ao qual não podemos fugir e que confere sentido à nossa própria vida. Mesmo que de modo difuso e sem saber onde tudo isso ia parar, ao longo da minha moderadamente breve vida eu vim colecionando competências que são caras ao bom editor: apuro estético, domínio da linguagem formal, contato com clássicos e contemporâneos das mais diversas artes, alguma robustez intelectual, conhecimento mercadológico e envolvimento com o mundo editorial em si. Junte-se a tudo isso uma curiosidade atroz e alguma experiência na área e, bum!, temos uma editora.

simonsen2Como você se enxerga, com uma editora independente, dentro do mercado brasileiro. Há demanda? Quais serão as maiores dificuldades?
A imensa maioria das editoras brasileiras, grandes ou pequenas, é “independente”, dado que não responde a um grupo internacional de investimento ou a acionistas. Mais importante do que verificar o quadro societário de uma empresa, prefiro verificar o catálogo que ela oferece a seus clientes. Isto posto, digo que há demanda por livros de qualidade, vindos daqui ou dali, deste ou daquele selo, que se estabelece por seu rigor com os processos e por suas escolhas de autores. Mesmo começando com Mário Vargas Llosa, Jack Donovan, Andy Nowicki e Robert Musil, ainda somos chiquitos, claro, com naturais dificuldades de distribuição e penetração comunicacional – mas também com fôlego de menino e ambições extraterrenas.

Atualmente a sede da editora é em sua casa? Pretende partir pra uma sede externa? Quando?
Não creio que isso espante o leitor desta entrevista, uma vez que a tendência administrativa do home office está mais do que difundida internacionalmente, e ainda não vejo a necessidade de migrar para um espaço maior. Trabalho com freelancers de altíssimo gabarito, em todos os cantos do planeta, sem mesmo nunca ter visto o rosto de muitos deles. Além do mais, se o escritório do Google oferece pingue pongue aos seus funcionários, eu ofereço PlayStation 4, jazz, milhares de livros e uma lâmpada com dezesseis milhões de cores. Estou contente na minha humilde residência.

Você trabalhou um tempo na livraria e editora Realejo. Por que saiu?
Por mais que respeite e admire o trabalho do José Luiz Tahan – meu eterno livreiro e amigo fraternal -, temos algumas divergências de visão de mundo e concepção de cultura. Mesmo tendo conseguido emplacar obras como “A Fórmula do Amor”, da Elizabeth Kantor, “A Alma da Festa”, do Alexandre Soares Silva, “Sob Efeito do Nada”, do Andy Nowicki, e a autobiografia do grupo Monty Python, no prelo, senti que eu precisava de mais autonomia para tocar os projetos do meu jeito, a partir dos meus próprios miolos. Mas continuo parte do conselho da Tarrafa Literária, festival que mora neste destemido coração.

Qual será o foco da editora Simonsen? Algum nicho específico?
Livros que não sejam chatos, nem insossos, nem chatos, nem enfadonhos, nem chatos, nem aborrecidos. Há um não mais acabar de filões subaproveitados pelas editoras nacionais, que ganharão atenção especial da Simonsen, de clássicos a contemporâneos de países esquisitos, de futebol americano a jazz, de pensamento conservador a estudos sobre QI. Esperem e verão.

Pode destacar alguns livros que serão publicados em 2015?
Começamos com o cult “O Código dos Homens”, do norte-americano Jack Donovan, sobre as virtudes essencialmente masculinas; seguimos com “Em Defesa da Leitura e da Ficção”, escrito por ninguém menos que Mario Vargas Llosa; passamos pela mais recente biografia do maior saxofonista de todos os tempos, Charlie Parker; e temos também um trio de clássicos composto por Conrad, Stevenson e Chesterton.

Simonsen (gray)Haverá espaço para autores da Baixada dentro do seu projeto?
Sem dúvidas. Já está sendo produzida a biografia definitiva de José Bonifácio, escrita pelo professor Rafael Nogueira; também está em fase inicial a biografia definitiva do maestro Gilberto Mendes, escrita pelo poeta e ensaísta Flávio Viegas Amoreira; estou em frutífero contato com o escritor e tradutor Alessandro Atanes, a fim de editarmos autores peruanos sob sua supervisão; e adoraria concretizar o projeto de publicação de doze autores santistas essenciais, cuja elaboração se iniciou na gestão do Secretário de Cultura Raul Christiano e tenho certeza de que terá prosseguimento com meu caro professor Fabião.

Fique a vontade para comentar algo que não tenha perguntado.
Muitos anos atrás, em entrevista a meu amigo Edney Silvestre, Paulo Francis disse que o Brasil era pobre por burrice. Eu não poderia concordar com mais entusiasmo. Em vez de culparmos as circunstâncias materiais, o governo, o preço dos livros, os pais desatentos ou nossa própria preguiça, devemos tomar as rédeas da nossa inteligência e, conscientes de quão burros somos, tentarmos avançar intelectualmente, um tiquinho a cada dia, até que sejamos dignos das calças que usamos.