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Eduardo Ferreira

Eduardo Ferreira (Foto: Tito Wagner).

Eduardo Ferreira (Foto: Tito Wagner).

Eduardo Ferreira, 28 anos, é uma das revelações do audiovisual santista. Presente com frequência em projetos relevantes para a região, lançará em 26 de agosto, 20h, na sala 1 do Cine Roxy no Shopping Pátio Iporanga, o curta-metragem “Anseios que permeiam meus tempos de paz”.

Com nove minutos de duração, o filme acompanha o diálogo de dois jovens. Um deles, Daniel, se vê incerto sobre quais atitudes tomar, ainda que suas ações possam tirá-lo da zona de conforto. O texto é livremente baseado no monólogo Segismundo, de Pedro Calderón de La barca. E pode ser interpretado como reflexo das manifestações de 2013.

Com formação técnica em Artes Dramáticas pelo Colégio Marza e Bacharelado em Comunicação Social em Rádio e TV pelo Centro Universitário Monte Serrat, Eduardo participou de diversas oficinas e workshops de cinema e interpretação, a exemplos da Oficina de Cinema Tela Brasil, Oficina de Direção de Atores do Stúdio Fátima Toledo, Workshop de direção de curta-metragem das Oficinas Querô, Workshop de direção de documentário ministrado pela Andrea Pasquini, Poéticas Teatrais Contemporâneas com diretor mexicano Alberto Villareal e da Residência Cinematográfica Ponto MIS, do Museu da Imagem e do Som do Estado de São Paulo, com grandes profissionais de renome internacional como Esmir Filho, Di Moretti e Cristiane Amaral.

Dirigiu o documentário  “Caçadores de Sonhos” (Vencedor do Prêmio Garimpo Cultural 2011) e co-dirigiu com Thiago Campos o curta “Pique-Esconde”, vencedor do 10° Curta Santos nas categorias melhor filme, melhor roteiro e prêmio especial do júri, vencedor do Concurso Ponto MIS, melhor filme do Festival Curta Filmes e vencedor da fase estadual do Mapa Cultural Paulista 2013/2014, selecionado no Fórum Kugoma de Cinema – África.

O site conversou com o diretor sobre sua carreira, o novo filme, o processo de realização, as expectativas para o lançamento. No dia da estreia, haverá um bate-papo logo em seguida da exibição, que abordará também o mercado audiovisual santista.

Como surgiu a ideia do curta? Como se deu a escolha do tema.
O ideia do curta surgiu durante a Residência Ponto MIS, durante um bate-papo sobre as manifestações sociais, onde questões sobre o real motivo das manifestações  vieram a tona. Ao voltar para Santos, ainda em tempos de manifestação, percebi que muitos amigos iam para as passeatas, mas não faziam ideia do que realmente estava acontecendo. Muitos iam pelo simples motivo do oba-oba, diziam que não era só por 20 centavos, mas em sua maioria, não percebiam o quão perto estávamos de dar um passo tão importante para a democracia do nosso país. A maior prova disso foi o fato de após as “cabeças” do movimento Passe Livre terem saído das manifestações, os atos enfraqueceram e tudo pelo que se lutou e marchou em belos momentos de democracia foram por água a baixo. Meu maior questionamento com isso tudo foi entender o porquê.  Se estávamos tão próximos de dar um passo tão importante, porque não seguir em frente? Talvez, no geral, não soubéssemos o que realmente queríamos. Talvez não tenhamos descoberto ainda quais são nossos verdadeiros anseios.  A ideia do curta é retratar o momento que antecede as passeatas: os questionamentos, os anseios e, quem sabe assim, abrir uma interrogação que permita uma reflexão.

Fale do processo de produção: quanto tempo levaram a pré-produção, as filmagens, montagem, etc?
Ao todo foram 12 meses de processo. Durante seis meses trabalhei no desenvolvimento do roteiro. Pesquisando material sobre as manifestações, participando de eventos, ações culturais e festivais que tivessem ligação com movimentos sociais. Tive uma breve aproximação com integrantes do movimento Passe Livre, Mães de Maio, movimento dos trabalhadores sem teto, entre outros. A ideia era buscar grupos e movimentos ativos que lutavam por um ideal, sabiam o que realmente queriam e se organizavam em prol disso. Grupos que não tinham medo das consequências ao saírem de suas zonas de conforto.  Com o roteiro pronto, foram mais três meses em busca de parceiros e apoiadores que possibilitassem a realização do filme. Conseguimos parcerias com alimentação, transporte, locação e equipamentos, além de profissionais que acreditaram no projeto e ofereceram seu talento e mão-de-obra; já a gravação, foi realizada em um único dia.  Após a gravação, foram mais dois meses de montagem e finalização e, depois, mais um mês cuidando dos preparativos para a estreia e distribuição do filme.

Frame: Rafael Roncarati.

Frame: Rafael Roncarati.

Como foi a recepção no lançamento em São Paulo?
Por se tratar de um filme participante da Residência Cinematográfica Pontos MIS do Museu da Imagem e do Som do Estado de São Paulo, o filme teve sua estreia no MIS, dentro da Mostra dos Residentes, junto a outros 10 filmes. A recepção nos dois dias de estreia foi muito boa, tivemos o prazer de vários espectadores nos relatarem seus anseios e seus questionamentos. Foi um momento de grande felicidade, pois a ideia do filme é essa, nos questionarmos, criar um ponto de interrogação.

Qual a expectativa da carreira do filme em festivais?
A expectativa é muito grande! Primeiramente recebemos um convite para participar de uma Mostra de Cinema no Macapá, e seguindo carreira, fomos selecionados para o 1° Festival de Cinema de Peruíbe, além do nosso primeiro festival internacional, o Figueira Film Art 2014 – Festival de Cinema de Figueira da Foz em Portugal. Além dos festivais, recebemos um convite da organização do Rio Screenings 2014 para divulgar o filme para distribuidores.

E para a sua carreira, o que planeja daqui pra frente?
A ideia é dar sequência no primeiro semestre de 2015 a um projeto que está engavetado há dois anos. Um documentário sobre o Navio Raul Soares. Pretendo também continuar me aperfeiçoando, buscando uma pós-graduação em cinema e meios audiovisuais ou cursos de aperfeiçoamento no exterior.


Trechos do filme. 

Fale de suas atividades atuais: você atua entre o audiovisual e o teatro, certo? Como faz pra se dividir entre os dois ramos?
Minha pesquisa no teatro busca uma interpretação naturalista, um registro muito próximo ao utilizado no cinema, talvez aí, eu encontre um equilíbrio. Amo a efemeridade do teatro, o momento que necessita ser vivido e sentindo com total intensidade por ser único. Não consigo me ver longe desse momento mágico. Falando em mágica, o cinema é pura magia. Conseguir mostrar meu olhar, meu ângulo, meu tempo através de imagens em movimento é algo que não me prende. Poder contar histórias, e saber que alguém do outro lado do mundo pode estar assistindo, ou pode assisti-lo daqui 10 anos é algo que me contagia. Apesar de muito distantes, são linguagens ao mesmo tempo muito próximas. Ambas tratam de um elemento único, a emoção. Enxergando dessa forma, fica mais fácil conciliar os dois ramos. Não acredito muito me dividir entre eles, pois trago meu cinema para o teatro, e levo o meu teatro para o cinema.

Como surgiu seu interesse por cinema e procura se espelhar em quais profissionais?
Há cerca de 10 anos quando passava por um momento frágil de saúde, assisti o filme “A Cor Púrpura”, de Steven Spielberg. Passava por um momento difícil e, ao assistir o filme, consegui forças para dar a volta por cima e me recuperar. A forma como o filme me deu forças e me permitiu tal recuperação nunca saiu da minha cabeça. Desse dia em diante decidi que queria também fazer aquilo. Tentar através dos meus filmes  contar histórias que possam emocionar, formar, ou transformar.

Um dos diretores que mais me espelho é o próprio Steven Spielberg, um dos mais versáteis do cinema. Consegue com delicadeza transitar entre dramas, blockbusters, ficção científica e ação.  Outro diretor que admiro muito é Walter Salles. “Central do Brasil”, “Abril Despedaçado” e “Diários de Motocicleta” são filmes que me inspiram.  Woody Allen e sua imensa versatilidade é outro diretor no qual me espelho muito quando penso no quero da minha carreira.

Expectativa para o lançamento no Roxy?
Espero poder dialogar. A ideia do filme é criar uma interrogação, possibilitar que as pessoas se questionem. A grande expectativa é poder após o filme trocar ideias sobre quais os anseios e conflitos que permeiam o público. Quem sabe não possamos, juntos, chegar a um ideal comum?