Os 51 anos de Wagner Parra

O mea culpa: essa entrevista foi feita em agosto de 2012 e deveria ter sido publicada no aniversário de 50 anos do DJ Wagner Parra. Mas o tempo passou, houve problema na hora de transcrever o áudio e, então, o colaborador jornalista Marcus Vinicius Batista apareceu para revisar tudo e colocar a casa em ordem. No entanto, muita coisa rolou nesse tempo: houve o fechamento do Torto MPBar e, consequentemente, a paralisação da Vitrolada – ambos retornaram recentemente. Parra passou a divulgar vídeos produzidos por Dino Menezes, na série Porra Parra!, no YouTube, participou de eventos como Santos Jazz Festival e Curta Santos, entre outras coisas que rolaram. Nada que não justifique a leitura e conferir a trajetória desse personagem da cultura santista (André Azenha). 

porAndré Azenha
Imagens: Acervo pessoal/Wagner Parra

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Texto introdutório de Marcus Batista

Wagner Parra depende da palavra. Vive por ela. Vive por ela. Adora colecioná-las, desde moleque. Durante o dia, nos últimos 25 anos, Parra comandou a Disqueria, lugar que reúne milhares de livros e discos. À noite, balança com as palavras na atividade de DJ, e colabora com a o Futuráfrica, caldeirão musical que recebe convidados de origens variadas. “99% da minha vida é música. Desde pequeno, acho que tive sorte, porque comecei ouvindo Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, comecei assim, desde criança”.

Quando está de folga, Parra se apoia na palavra para protestar. Sempre recusou convites do Poder Público. Prefere fazer política sem rótulos, apontar os deslizes da política cultural em Santos sem comprometimentos com correntes ideológicas.

Nesta entrevista, você conhecerá as posições do DJ, que completou 51 anos neste dia 12 de novembro.

Entrevista por André Azenha

Culturalmente Santista – Como você foi parar na vida cultural de Santos?

Wagner Parra – Por envolvimento político e social. Eu fazia faculdade de comunicação e comecei a trabalhar em movimentos ligados à anistia, mais ou menos em 1978, 1979. Eu comecei a organizar eventos, trazer artistas para Santos, que eram ligados a esses movimentos, viabilizar as festas, aquela coisa bem amadora. Pegava um 3 em 1 e colocava um vinil pra tocar, uma fita k7. Organizava festinhas, essas coisas. Logo em seguida, começou a aparecer o movimento de criação do PT. Eu fazia muito evento ligado ao PT, com os artistas que apoiavam na época.

Agora, profissionalmente, como produção cultural, o primeiro evento que eu fiz, sem envolvimento com movimento social, foi com o grupo Corpo, de Belo Horizonte, com o espetáculo “Maria, Maria”. Foi quando a gente criou a Fiasco Produções, o Marco Fetanes e eu.

Culturalmente Santista – Em que ano?

Wagner Parra – Sou meio ruim de data, mas foi começo dos anos 80. A gente começou a trazer os mesmos artistas, mas já pagando cachê, trabalhando com porcentagem, com aproach profissional e tal. Aqueles artistas todos do Lira Paulistana, eu era viciado em ir lá, então trazia todos para Santos: Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, Língua de Trapo, Eliete Negreiros, Titãs do iê iê iê.

O primeiro show que os Titãs fizeram aqui em Santos. foi a gente que armou, era um evento do João Carlos Morais Carmargo, no Heavy Metal, que era do Toninho.

Culturalmente Santista – Como você começou na música? Seus pais?

Wagner Parra – Não, talvez por uma mania de colecionar coisas. Eu comprava aqueles discos de banca de jornal, daquelas coleções da Abril Cultural de compositores e comecei a me interessar. Eu nunca tive envolvimento com rock in roll, nunca fui rockeiro. Resolvi discotecar porque eu percebia que as coisas que eu gostava, ninguém tocava em lugar nenhum. Eu ia nos bailes da época, no Caiçara e tal, e sempre tocavam as mesmas coisas, rock in roll ou disco music. E eu gostava de outras coisas. Então, achei que podia tocar o que ninguém tocava e ser DJ.

wagner6Culturalmente Santista – Como você começou como DJ?

Wagner Parra – A primeira vez que eu discotequei profissionalmente foi junto com o Jhony Hansen, no Café del Rey, ou del gay, como a gente chamava. Era um bar gay que tinha na (rua) Epitácio Pessoa. Eles deram a segunda-feira pra gente porque nesse dia não abria. E fizemos uma festa chamada Pós-tudo. Aí já dá até pra colocar uma data, porque esse poema é de 1984, então esse foi o ano. Eu li esse poema na Folha de São Paulo e me chamou muita atenção, poema do Augusto de Campos. Usei esse nome para a festa. E a gente tocava Joy Division, The Smiths, Legião Urbana, Camisa de Vênus. O Hansen tocava umas outras coisas dentro daquela viagem de rock industrial, aquele pop belga.

Culturalmente Santista – E como foi a Pós-tudo?

Wagner Parra – A gente fez a festa, foi bem bacana. Logo na primeira teve bastante gente. Fizemos umas duas ou três, depois paramos. Aí fui para São Paulo porque a gente tinha uma produtora chamada Fiasco Produções e trazíamos muito espetáculo para Santos. Nós organizávamos eventos de música, teatro, balé, evento cinematográfico com Maurice Legeard. Alugávamos filme de 16 milímetros que era exibido na cidade toda, até no lençol da pedra.
Nesses anos de Fiasco Produções, a gente chegou a trazer até Jimmy Cliff para Santos, assim como Paralamas do Sucesso, Ritchie, no auge do Menina Veneno…Tínhamos uma filosofia que era o seguinte: trabalhar 50% por ideologia, fazendo eventos que quase nunca ganhávamos dinheiro, e 50% para o bolso.

Teve um acontecimento uma vez: no mesmo domingo, estávamos com o Ballet Estágio, fazendo estreia nacional de uma coreografia no Teatro Municipal e o Menudo Cover, em Cubatão. Eu ganhei muito dinheiro com o Menudo e nada com o Ballet, mas o segundo me dava muito prestígio, prazer de realizar, muito trabalho. O Menudo Cover não me dava nem trabalho, nem prestigio, muito pelo contrário, não contávamos para ninguém que éramos nós que estávamos fazendo. Era só uma questão de sobrevivência mesmo.

E nesse período, a gente trouxe para Santos, o espetáculo “Feliz Ano Velho”, três vezes, nas folgas do grupo. Eles faziam em São Paulo de quinta à domingo, então os trouxemos para cá na segunda e terça e foi um sucesso, lotava o Teatro Municipal. Na quarta vez que a gente trouxe, eles propuseram da gente tomar conta da companhia. Ficamos quase um ano e meio trabalhando com eles, direto, 100% tomando conta desse espetáculo, viajando pelo Brasil todo. Isso terminou em uma viagem para Cuba, em que eles se apresentaram num festival para o Fidel, Gabriel Garcia Marques. Foi a primeira vez que fui para Cuba. E quando a peça deu um break, o Marquinho se misturou com o pessoal da Soma Terapia, do psicólogo Roberto Freire, aquela coisa de psiquiatria alternativa. E o Roberto fazia uns eventos meio aula, meio curso, meio terapia, no Espaço Mambembe, que era um teatro no Paraíso, em São Paulo, do grupo Mambembe de teatro. Num desses eventos que ele participou, precisava de um DJ e ele me chamou.

wagner5Culturalmente Santista – Assim que você começou, de fato, como DJ?

Wagner Parra – Sim, eu ainda era amador. E com o sucesso dessa festa, o Roberto Freire procurou a gente para fazer a mesma festa, com o mesmo esquema da primeira e foi mais legal ainda. Os diretores do Teatro Mambembe, a Maria do Carmo e o Dourival Riso, já estavam cansados do espaço, não estava dando muito certo, eles estavam com dificuldade de pagar as contas e propuseram que o Marquinhos e eu assumíssemos o lugar. A gente assumiu. E durante uns quatro anos, foi o grande lance da noite de São Paulo. O Madame Satã já estava cansado.

Mas a gente tocou o Espaço Mambembe. Eu como DJ, programador e dono, morando em São Paulo, com uma pequena base aqui em Santos. E nesse período é que eu virei DJ realmente.

Culturalmente Santista – Como foram as apresentações em Cuba?

Wagner Parra – Foi sucesso. Tivemos um problema, como não tinha passagem para Cuba, eu consegui, de graça, com a Vasp, passagem para Kingston. E o Fidel ficou de pegar a gente lá. Quando chegássemos lá, seis horas depois, um aeroflot russo pegaria a gente para levar para Havana. Quando ele pousou em Kingston, nosso nome não estava na lista. E do hotel, começamos a nos comunicar com Cuba. O Paulo Betti foi falar com o embaixador brasileiro na Jamaica, conheciam ele por causa da novela. E conseguimos uma autorização especial da Jamaica para deixar um avião do Fidel buscar a gente, mas isso se passou em dois dias.

Chegamos de manhã, no dia da estreia. O Paulo Betti até disse que não teria a apresentação naquele dia. Fomos para o hotel dormir, cansados, mas meio-dia ele bateu na porta: “Não, vamos que é hoje mesmo”. E fizemos a estreia.

Em Cuba

Em Cuba

Culturalmente Santista – Como foi a peça?

Wagner Parra – Três mil pessoas no Teatro Nacional de Havana, Fidel Castro na primeira fila, Gabriel Garcia Marques aplaudindo. Teve um crítico local que não entendeu direito, mas era porque ele tinha uma visão ligada ao teatro sofrido, o teatro tem isso. Depois, uma parte do elenco teve que voltar para o Brasil. A Denise Del Vecchio tinha espetáculo em São Paulo, novela na Globo. Nós ficamos e fizemos umas três apresentações em Havana, mas o festival continuava e eles queriam que nos apresentássemos pela ilha inteira, mas a gente deu um “cambeque”, brasileiro, né?!

Eu, o Adilson Barros e D’Artagnam Júnior, que faziam parte do elenco, enganamos a organização do festival, dizendo que tinham outros espetáculos em nosso casting, mas não tinha. O que tinha era um embrião, porque estávamos começando a montar em São Paulo, no teatro Eugênio Kusnet, “Dois perdidos numa noite suja”, do Plínio Marcos. E dissemos que tinha outra peça, mas não tinha nada. Eu, na época, só fazia produção. E usamos Talking Heads na sonoplastia, arrumamos um cenário, uma cama velha e um sapato velho e fizemos “Dois perdidos numa noite suja” pela ilha inteira. Montamos lá em dois dias e foi o maior sucesso. Eu tenho até capa do jornal Granma, falando do espetáculo, que o Plínio Marcos é maravilhoso, atores são bons etc.

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Culturalmente Santista – Vocês conheceram Fidel nessa conferência?

Wagner Parra – O Fidel convidou os diretores de teatro para um jantar. O Paulo Betti organizou uma rebelião e disse que, se fossem só os diretores, ele não iria. E o Fidel aceitou essa proposta e convidou todos. Eu já estava no hotel, bateram na minha porta e deram o convite do Fidel, dizendo para estar no teatro, dez horas da noite, que alguém iria me pegar lá. Um esquema de segurança sério, até porque, o cara que estava dividindo o quarto comigo recebeu o mesmo convite, mas ele seria pego em outro lugar. Aí fui para o Palácio da Revolução e lá, tive contato grande com Fidel, umas cinco/seis horas conversando com ele, tirei foto e tal.

Não ficamos de coisa muito séria, não. Ele quis falar sobre o Corinthians, perguntou para a gente como era o time, falamos de maconha, sobre o fato das pessoas ficarem oferecendo “maria huana” na rua. Nós conversamos sobre muitas coisas, mulheres, música, filme e tal.

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Culturalmente Santista – E quando voltou para o Brasil?

Wagner Parra – Voltei com muitos discos da Jamaica e Cuba. Eu comentei com o Fidel que era DJ e ele me deu o cartão da diretora de uma gravadora cubana e eu fui procurá-la. Eu entreguei o cartão do Fidel, ela me levou para a sala dela e me deu uns duzentos LP’s. Isso foi em 1986. Tanto na ida, como na volta, eu passei pela Jamaica e trouxe bastante coisa de reggae. Só vinil.

As rádios não tocavam, não tinha internet. Se alguém viajava e trazia, sabíamos que tal pessoa tinha o disco e tal, era comentado entre o pessoal da alternativa. Eu cansei de ir no Madame Satã para ouvir músicas que só tocava lá. Quando eu voltei, estava calibrado. Retomei minha carreira de DJ aqui e estava com muitas novidades. Nessa época, eu tocava muito e virei sonoplasta de teatro também, parei de trabalhar com produção.

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Culturalmente Santista – Deu para ganhar dinheiro com produção?

Wagner Parra – Deu para viver, paguei as contas, fui vivendo. Ganhar dinheiro mesmo eu só ganhei quando trouxe o Toquinho para cá uma vez, mas foi por pura sorte. A gente o contratou em janeiro para fazer show em junho, numa condição boa. E, em maio, saiu o disco Aquarela. A música estourou e nós arrebentamos, colocamos quase quatro mil pessoas no Vasco, precisávamos levar só mil.

No geral, ganha-se pouco, às vezes nada, às vezes perde. Como aconteceu de eu trazer o Tom Zé no carnaval para o Heavy Metal. A gente fez esse evento com ele e quase trinta músicos. Simplesmente, só teve um pagante que, depois o cara ainda percebeu que era o único, então devolvemos o dinheiro para ele. Foram cinco noites, sem nenhum pagante. Quando a gente percebeu que a vaca ía para o brejo, abrimos as portas. Pelo menos o Heavy Metal funcionaria, venderia bebida e essa parte da sacanagem com o Toninho ficaria amenizada.

Culturalmente Santista – Por que Fiasco?

Wagner Parra – Eu sempre me incomodo com essas pessoas que colocam nomes como “sucesso”, “retorno” e tal. Eu me incomodava com esses nomes assim, “super bacanas”. E preferi chamar de fiasco, uma coisa muito ligada à evento. E era legal, quando eu me apresentava, dizendo que era da Fiasco Produções, era um sintoma perfeito. Eu entregava um cartão com a arte do Lauro Freire, com o teatro vazio, só com um cara dormindo na última fileira. Então, já era o termômetro para saber: se a pessoa fosse muito careta, ela não gostaria, a coisa não daria certo e tudo terminava ali. Se fosse alguém mais aberto, a fim de correr risco, ela já olhava para aquilo e gostava, então era uma forma de filtrar. Mas a gente fazia direito, fiasco mesmo a gente só teve esse com o Tom Zé. O resto nunca foi fiasco.

wagner1Culturalmente Santista – E como sua carreira como DJ deslanchou?

Wagner Parra – Eu discotecava muito assim que voltei para o Brasil. Quase todos os dias da semana, em diversos lugares de São Paulo. Fui DJ residente no Aeroanta, depois não aguentei, porque tinha o espírito de tocar muita música pop e me enchia um pouco o saco. E acabei ficando só com a noite de domingo, que era de salsa. Eu fui DJ da orquestra Retbakers durante um ano e meio.

Fazia sonoplastia para teatro, fiz para “A Partilha”, a montagem com a Suzana Vieira, Yoná Magalhães, Natália do Vale e Arlete Salles, direção do Falabella. Trabalhei quase um ano e meio com ele. Fiz “O Amigo da Onça”, direção do Paulo Betti, com o Sergio Mamberti, um elenco bom. Fiz sonoplastia de vários espetáculos infantis.

Depois disso tudo, uma hora eu cansei e decidi voltar para Santos, montei a Disqueria. Dei esse nome porque, na Argentina, todas as lojas de disco chamam disqueria. Então, abri com a Suzana, lá no canal 5. Nesse tempo, era na garagem da casa da família dela. E eu ainda ia para São Paulo para fazer sonoplastia para algumas peças ou discotecar em algum lugar, mas fui diminuindo, cada vez, subia menos.

Comecei a fazer a noite de reggae no Torto. Nenhuma casa noturna abria durante a semana e começamos a fazer a festa lá de quinta, e era sucesso. Discotequei no Bar da Praia, na época foi um choque “um DJ no Bar da Praia, o templo da bossa nova e da música ao vivo”. E foi ali que deu uma estourada, o “DJ Wagner Parra” aqui em Santos. Quando eu comecei a discotecar lá, foi um choque térmico, as pessoas não queriam nem pagar o couvert. Elas diziam que não tinha música ao vivo, então não pagariam. Foi difícil.

Eu sempre fui militante em questão do nome, sempre exigi dos lugares, onde discotequei, que tenha meu nome no cartaz, no convite, na porta. Não por vaidade, mas para deixar claro que tem uma pessoa ali que vai fazer um trabalho. Eu sempre batalhei muito por valorizar o DJ, a pessoa que vai tocar as músicas e que não necessariamente precisa ser um DJ.

E no Bar da Praia a coisa começou a crescer muito. Lá era muito legal mesmo, o Eduardo era o melhor recebedor de pessoas, tocava lá muita gente bacana, além da galera local, Julinho Bittencourt, Simonian e etc.

Mas aí explodiu, eu fui duas vezes capa de A Tribuna. Tenho uma edição em casa com a foto do Herbert Viana, do Paralamas, e ao lado, uma minha. Na capa do jornal.

Nesse período, fiz muitas festas com A Tribuna também, fui chamado para o Cachaça Brasil, no Bar do Três, a coisa começou a crescer muito, todos queriam que eu discotecasse. Mas até que uma hora eu resolvi dar um tempo, estava também com a Disqueria, que já estava mudando para a Rua Goiás. Me separei da Suzana. Resolvi dar uma parada. E depois, fui retomando devagar, o SESC sempre me chamava para fazer eventos, abrir shows. Trabalhei muito no Sesc Belenzinho, em São Paulo.

Há uns anos atrás, trabalhei na casa do Vanderlei Luxemburgo, que tinha aquele aproach de salsa, a Império Cubano. E depois teve essa última retomada. Mas durante todos esses anos, desde o começo, eu faço exatamente a mesma coisa. Misturo um monte de coisas, que hoje em dia, é super normal. Mas naquela época, DJ tocava disco ou soul e samba-rock nos bares de música black em São Paulo. Ninguém imaginava um DJ tocando Gilberto Gil, Caetano Veloso ou Chico Buarque. O que eu faço é uma seleção de músicas.

wagner2Culturalmente Santista – Dependendo da reação do público, você muda a programação das músicas?

Wagner Parra – Lógico, eu tenho um leque de possibilidades, com alguns parâmetros. Agora, eu não vou muito para fora de um lado, nem de outro. Não tenho muito preconceito com música, posso tocar qualquer coisa. O que eu tenho são escolhas e não, necessariamente, você vá gostar das minhas escolhas. E eu também não acho que as músicas que eu toco são melhores que as músicas que os outros tocam. Elas são apenas as minhas escolhas. Eu considero que é apenas o jeito como eu escolhi fazer, assim como o fotógrafo opta por preto e banco, analógico ou digital, com mais brilho e menos brilho. São escolhas.

Culturalmente Santista – E a Disqueria nessa história toda?

Wagner Parra – Quando eu comecei a loja, foi com a Suzana Carvalhais. A gente sempre quis ter uma loja e ela tinha uma garagem vazia. Então, começou ali, era bem familiar, tinha que apertar a campainha para entrar. Era 100% vinil. Depois, vimos que a coisa podia dar certo e alugamos uma casa, do avô da Suzana, que era do outro lado da rua, na Sampaio Moreira. Ali começou de verdade mesmo, com porta aberta e placa. Com o tempo, fomos acrescentando livros, gibis e mais para a frente, CD’s. Depois, abrimos na Rua Goiás, uma filial, ficamos com duas. E quando me separei da Suzana, nós desfizemos a sociedade. Ela ficou com a primeira loja e eu com a segunda. Dividimos tudo. O nome acabou ficando comigo, porque foi uma opção minha. E ela também tinha outras ideias para nome, ficou “Bolachos e Cassetes”, se associou com a Aline, mudaram o local da loja, mas depois, parou.

E eu continuo até hoje. Antes na Goiás, mas o lugar era muito quente, prédio antigo e tal, então resolvemos vir para cá. Foi uma decisão difícil, porque os custos aqui são muito maiores, mas também é tudo melhor.

Culturalmente Santista – Os vinis eram só usados?

Wagner Parra – Era 99% usado, mas eu pegava algumas coisas novas, duas ou três cópias do Gil ou do Caetano, os que eu gostava. Mas, basicamente, era usado.

Culturalmente Santista – E como está com o endereço atual da loja?

Wagner Parra – É uma empresa familiar, não temos empregados. Somos só minha esposa e eu, vamos fazendo o que dá para fazer, ainda mais acumulando essas coisas, eu ainda trabalho como DJ. Mas, estou super feliz com a mudança, é muito mais fresquinho, até em dias super quentes, fica mais tranquilo, é mais iluminado. Tem essa vista para o mar e é mais fácil para as pessoas virem aqui.

Ilustração com os DJs Caiaffo, Parra e Lufer, trio de sucesso nas noites da Vitrolada

Ilustração com os DJs Caiaffo, Parra e Lufer, trio de sucesso nas noites da Vitrolada

Culturalmente Santista – E a Futuráfrica?

Wagner Parra – Eu sou amigo do Lufer há muitos anos. Quando ele começou com a Futuráfrica, eu estava com uns trabalhos certos com o SESC. E sempre fui meio conselheiro dele, dando uns toques. E ele foi construindo uma coisa legal, batendo cabeça aqui e ali. Eu discotequei no aniversário dele, primeiro ano da Futuráfrica. Eu tinha umas intervenções com ele definidas, aniversário e tal. E a gente sempre falou de ter uma noite fixa, uma noite latina, num lugar, todo dia da semana, sempre, sem que fosse um parto. Porque cada vez que você faz algo é um parto e se vira fixo, a gente vai indo. Para fazer um evento em outro lugar, como acontece no Antonina, é um parto, porque tem que levantar tudo. No Torto, não. Pode acontecer até de um dia a gente não falar nada no facebook, ficar bem quietinhos, e dar cem pessoas lá.

Quis voltar às minhas origens, de dia de semana, e conseguimos o Torto para terça. Aí encaixou. Inventamos essa coisa de Dj’s acidentais, que ajuda a promover, torna a coisa mais lúdica, quebra a monotonia, mas é uma filosofia minha de mostrar que qualquer pessoa pode ser DJ, no sentido de ser selecta.

Tem até uns imbecis agora falando em curso para DJ, que precisa de diploma para discotecar, assim como aconteceu no Jornalismo, na minha cabeça isso não cabe não.

Eu não me formei na faculdade de jornalismo, fiz seis semestres. Eu fazia faculdade no diretório acadêmico.

wagner11Culturalmente Santista – Você se considera de esquerda…

Wagner Parra – Minha postura é de esquerda sim, mas não sou cego e nem defendo minhas posições com interesses de cargo ou benefícios, como a maioria das pessoas fazem. Então, me sinto à vontade para defender minha posição, pois há 30 e poucos anos eu faço isso e nunca me beneficiei de serviço público. Até poderia.

Eu já tive convite para trabalhar em órgãos públicos e não aceitei porque, na época, eu consegui visualizar que não poderia fazer porra nenhuma. Os equipamentos e órgãos públicos são atolados de gente que não faz nada, apadrinhados por vereadores e políticos. No caso, era o Teatro Municipal e eu percebi que não conseguiria fazer nada lá dentro. Isso foi no começo dos anos 90. Na época, eu sabia como funcionavam as coisas por lá. As pessoas são colocadas nesses cargos, não porque elas são da música ou do teatro, mas sim porque são parentes, amigos de alguém, ou estão ligados a um deputado. Essa é a forma como as contratações são feitas. Não estou falando de nenhum partido em específico, é assim com todos, sem exceção. Até quando alguém bem intencionado entra e ganha uma eleição, ele se depara com um problema que, se enfrentar de frente, será uma guerra muito grande com uma parcela do setor político da cidade. Então, prefere fingir que não está vendo que isso acontece, vai se acumulando.

Quem trabalha com cultura, com teatro, não pode encarar esse trabalho como um despachante ou alguém que carimba papéis e trabalha de tal hora a tal hora. Por isso, não aceitei. Se eu aceitasse, acabaria batendo de frente com isso tudo ou teria que me adaptar e passar a ser mais um dentro desse esquema, que ganha seis/sete mil reais por mês, com um monte de regalias, férias, décimo terceiro, licença prêmio, com direito a ficar doente duzentas vezes por ano.

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Culturalmente Santista – Qual a sua visão do meio cultural na região?

Wagner Parra – Eu acho que Santos é uma das poucas cidades em que os músicos podem viver de música. É claro que em São Paulo e Rio isso é possível, mas não são tantas cidades em que isso pode acontecer. As pessoas podem dizer que é tudo cover, músico da noite, que cantam as mesmas músicas. Também é verdade. Mas, de certa forma, as pessoas podem sobreviver disso. E isso não tem nada a ver com o poder público, tem haver com os bares e o movimento bem antigo que já tem na cidade, como no Torto, que há 30 anos mantém a porta aberta com música ao vivo.

Eu não concordo muito com as iniciativas do poder público, mas isso é opinião minha. Eu acho que, voltando a falar sobre aquela coisa do funcionalismo público, as coisas são feitas com uma pura obrigação de fazer e apresentar um relatório. As pessoas que entram nessa roda viva de secretarias de cultura são obrigadas a realizar alguns eventos que estão na agenda, como as tendas na praia, os bailes, música na Bolsa, na Fonte do Sapo, uns projetinhos assim, e aquilo vai virando um “nada”.

Acho até que as pessoas cometem um equívoco histórico. Se eu vou tocar para uma iniciativa privada, alguém que está organizando um evento e espera obter lucro, eu cobro um cachê “x”. Agora, se eu vou fazer um trabalho com a prefeitura, algo que será gratuito para as pessoas, penso, na minha opinião, que devo cobrar menos. Porque é de graça, porque quem está pagando, na verdade, é o público. Mas as pessoas fazem o contrário, elas abusam do fato de estar trabalhando para o município, estado ou federal. Isso acontece em todos os níveis de artistas.

Eu defendo que o poder público tem que cuidar dos equipamentos, principalmente. Eu acho que o poder público tem que manter esses lugares abertos, funcionando. Facilitar a criação de eventos, incentivar, juntar a iniciativa privada para exonerar o município para que ele possa fazer coisas maiores. E não ficar dando dinheiro para as pessoas.

As pessoas não tem um projeto, elas ficam esperando abrir um edital e se tiver dois milhões para um show de mágica, elas correm atrás de fazer o show de mágica. É um absurdo. Hoje em dia, há pessoas que são caçadoras de editais, ficam todos os dias lendo o Diário Oficial para ver o que tem de novo, para fazer projetinhos. Aí executa sabe se lá como, porcamente. Pega aqueles dez mil reais, faz relatórios, às vezes nem executa.

Vídeo de um baile AfroJazzLatino

Culturalmente Santista – E a relação entre os artistas, como você vê o meio?

Wagner Parra – Eu não sei. Acho que não existe muito isso em Santos, uma aglutinação. Hoje em dia, tem muita gente que trabalha com sigla, pessoas ligadas a esses editais, há um monte deles aí. Existe uma classe teatral, não sei até que ponto eles se ajudam. Na parte da música, acho que não existe nenhum movimento de aglutinação das pessoas, e é o que mais faz falta na cidade. É uma coisa que o poder público poderia ajudar muito. Criar movimentos, não estéticos, nada ligado a um tipo de música, um tipo de arte cênica. Mas que gere um burburinho cultural, que facilite o acontecimento de coisas.

Temos alguns focos aqui, como o SESC, mas esse não conta, né?! Apesar de contribuir muito com isso, fazendo o Mirada e outros eventos. Mesmo lá, há resquícios de funcionalismo público. Acho que faltam existir alguns elos que liguem as diferentes movimentações da cidade. Facilitar divulgação, equipamentos.

Wagner Parra entre o editor do CulturalMente Santista, André Azenha, e o colega de discotecagem, Dr. Caiaffo, após uma das Vitroladas no Torto

Wagner Parra entre o editor do CulturalMente Santista, André Azenha, e o colega de discotecagem, Dr. Caiaffo, após uma das Vitroladas no Torto

Em geral, as pessoas procuram os caminhos mais simples. Quer falar de literatura, você lança biografia de um artista famoso, no caso da música, você toca o que estiver rolando na novela. É assim, é mais simples. São poucas as pessoas que buscam um caminho diferente, até porque ninguém tem muito fôlego para fazer as coisas só por prazer.