Danilo Nunes

Danilo Nunes, 33 anos, ator, músico, compositor, cantor. Santista de nascimento, desenvolveu uma carreira no teatro, que depois tomou um rumo natural à música. Atualmente, se apresenta com o Carrossel de Baco e prepara novo CD solo e o primeiro livro.

Em entrevista ao CulturalMente Santista, narrou sua trajetória desde a infância, quando pensava em ser famoso, as transformações na vida pessoal, da classe média alta a alguém que enfrentou dificuldades, passando pela juventude, a atuação política, teatro, música, inclusive o pagode, e cinema, e os projetos atuais. Também lembra do amigo Zéllus Machado, que lhe deixou toda a obra antes de morrer.

Danilo é um dos convidados do 1º CineZen Cultura Caiçara, nesta sexta-feira, 2 de novembro. A seguir, a entrevista, que ainda aborda o cenário cultural da Baixada Santista.

Onde nasceu e cresceu?
Nasci em Santos, em 7 de fevereiro de 1979. Passei um tempo em Santo André, Paraty, no Rio, alguns outros lugares, mas cresci no bairro (Embaré).

Quais foram seus primeiros contatos com a arte?
Como todo mundo que vai buscar a arte, o meu primeiro contato foi midiático, televisivo, a busca não pela arte, mas pela fama. Desde quando era bem novinho, queria cantar na televisão, mas ao mesmo tempo, já desenvolvia algumas coisas artísticas. Desenhava, cantava no banheiro, atuava, ficava brincando com o meu irmão, fingindo que estava cantando para uma multidão. Por um lado, tinha alguns vestígios de que a arte já estava dentro de mim, mas eu pensava na fama.

Comecei fazendo peças na escola, estudava no Lusíadas. Entre a oitava série e o primeiro colegial, encenei algumas peças sobre matérias da grade curricular, mas era algo bem escolar mesmo. A primeira que fiz foi “Romeu e Julieta”. Foi aí que eu comecei a achar um barato. Via que teatro não era apenas aquilo, era todo o relacionamento que você acabava mantendo com as pessoas que estavam trabalhando com você. Ficava linkado com tudo aquilo que estava em volta, como a amizade.

Com o Carrossel de Baco


Você já tocava alguma coisa?
Não. O violão, por exemplo, é bem recente.

Quais eram as suas referências ou inspirações?
Eu queria ser médico, fiz vestibular duas vezes, mas por quatro ou cinco candidatos acabei não entrando na USP. Então, me revoltei e fui fazer veterinária.

Na escola, tinha um professor de ciências que, hoje, para mim, é um grande ator, o Márcio de Souza. E nós ficamos muito amigos, apesar de que as montagens que eu fazia das peças eram para as aulas de português, diferentes das dele. Depois eu o via nos comerciais na TV e, anos mais tarde, acabamos nos reencontrando. Eu já era presidente da Federação de Teatro e ele era delegado de cultura, trabalhava na Cadeia Velha.

Depois da escola, fui fazer cursinho, rodei o Brasil inteiro prestando Medicina, Londrina, Vassouras… uma série de vestibulares, mas não entrei em nenhum. Tinha um grupo de amigos que fez essas viagens. Foi muito legal. Mas como não passei, fui fazer Medicina Veterinária na Unimonte e fiz até a metade do segundo ano, porque foi bem na época da separação dos meus pais e a grana ficou meio apertada em casa. Eu gosto muito dessa área, meu colegial foi especializado na área de Biomedicina, no Lusíadas: era um preparatório para quem queria ir para esse ramo de atividade.

Depois disso, fiquei muito tempo parado. Era engraçado que os meus testes vocacionais davam sempre Medicina e Arte. E comecei a tocar percussão e passei a ter uma maior afinidade com música, brincava com uns amigos, tocando em botecos. Isso foi, mais ou menos, nos anos noventa. Na época, o que pegava mais era o pagode, aquela febre toda, e eu acabei indo tocar em grupo de pagode. Inclusive, foi onde conheci o baterista do Carrossel de Baco, o Anderson – ele era vocalista de uma das bandas. Nem era algo que eu gostasse muito, mas acabava ouvindo, né?! Nesse tempo, era bem eclético, gostava de tudo, tudo que era da moda, do momento. E foi indo, eu entrei em cada uma (risos). Hoje em dia, não gosto muito, até porque nem conheço mais. As pessoas falam da diferença entre o pagode e o samba, mas o pagode é só o nome da festa onde tem samba.

Até então, batucava esses instrumentos de samba. Não ganhava quase nada, só umas coisas por aí, mas nada que desse para viver bem. Depois que fui procurar outros instrumentos de percussão, na mesma época em que voltei ao teatro, no final dos anos 90. Foi tudo muito junto. No mesmo período também entrei no PT.

O amigo e parceiro musical Zèllus Machado, ao centro

Por quê?
A minha mãe sempre falava muito dessas questões políticas, a influência da literatura, da música com o Chico Buarque, Caetano Veloso, mas só depois que fui descobrindo, não adiantou muito a mãe falar. Pelo menos, eu já tinha ouvido muito ela me falar disso e fui atrás depois.

A minha mãe é amiga da Telma de Souza e minha família era muito próxima da família do Mário Covas. Lembro que, quando era novinho, ía para várias campanhas, via os tucaninhos, eu era muito pequeno, lembro de pouca coisa.

A separação dos meus pais me fez cair em outra realidade e ver a vida com outros olhos. Saí de um momento que tinha tudo que queria e ir para um momento de não ter nada. Fumava cigarro e não conseguia nem me financiar. Quando eu não tinha dinheiro, ía pedir cigarro na rua. T tinha uns 17 para 18 anos.  Mas isso foi positivo para mim. Era daqueles caras que passava de carro, molhando as pessoas no ponto de ônibus e achava um barato, falava “puta, pobre é foda”. Eu peguei aquela transformação social em que passávamos na época, tinha muita diferença mesmo e “foda-se”. Peguei toda essa bagagem das escolas em que estudei, porque era uma época em que o ensino público já estava começando a decair e eu estudava em colégio particular. E eram só os “tops”. Escola particular não era tão acessível como é hoje. Era muito foda. Então, vim dessa classe média alta.

Danilo e o Carrossel de Baco no Sesc Santos 

A gente nunca sabe por que as coisas acontecem na nossa vida, mas hoje, eu agradeço pra caramba. Fui criado com esporte, quase me profissionalizei no basquete, tinha horror a cigarro, fazia natação, tudo que imaginarem, mas tudo isso foi acabando, porque tudo dependia de dinheiro. E a coisa foi ficando assim, diminuindo tudo que eu tinha.

Hoje, meu apartamento é uma bagunça, até porque todos que moram aqui são um pouco bagunceiros e a gente fica o tempo todo fora, mas já estivemos em situações terríveis. Um amigo, Matheus Lopes, até dizia que não conseguia nem entrar na minha casa, era um perrengue. Saí do tudo para o nada.

E passando por esse processo, entrei no PT, me empolgava bastante com o trabalho, articular e tal. Vendia jornal, conheci um monte de gente importante, aprendi muito dentro do partido político, muito mesmo. Já gostava de ler e foi aí que eu comecei a me encantar mais e a estudar mais. “Comia” livros.

A música acabou ficando de lado e voltei para o teatro. me inscrevi na Secult, em 99, fui fazer curso com André Leahun e também conheci a Angélica Magenta, que, aliás, são duas pessoas que fazem parte da minha história. Conheci várias pessoas ali e acabei indo para o PC do B e sou, até hoje, filiado com convicção ideológica.

Por que saiu do PT?

No FESTA

Você vai estudando, vai entendendo uma série de coisas. Entrei no PT porque a minha mãe era amiga de infância da Telma, e eu tinha muitos amigos que estavam ligados a esse partido. E eu fui e lá fiquei um tempo, mas depois resolvi sair e ir para o PC do B. Vi que no PT, existia democracia interna, sim, mas ela tinha suas limitações, porque a partir do momento em que você sai para bater no seu próprio partido para os outros, você deve mudar de partido, porra. Partido já é uma organização em que as ideias são, mais ou menos, alinhadas, diferenças existem, mas as opiniões são mais próximas, senão não tem sentido.

Então, saí e fui para o PC do B, conheci a Lilian Martins, já falecida, e que foi a minha maior professora de política, uma grande orientadora, era professora de história. No PT foi onde eu comecei a estudar, mas no PC do B, onde entendi realmente tudo. E eram muitas conversas, discussões.

A política e o teatro já me davam tanta coisa, que eu fui largando o pagode. Tinha saído da faculdade de Veterinária e, um dia, eu tinha um show de pagode para fazer no Cachaça Brasil. Minha namorada foi me levar até lá, mas eu acabei nem entrando porque o show já estava rolando e eu ainda estava com um bottom do PC do B na camisa, vindo de uma reunião.  No dia seguinte, tinha ensaio de teatro e tal.

Quando eu voltei para o teatro, foi quando tive maior contato com a música, quando assumi a Federação. Organizei três FESTAS, conheci o Toninho Dantas, o Beto Santos, Renato Di Renzo, Carlos Pinto, Tanah Corrêa – os dois últimos são pessoas de que eu tenho o maior respeito e admiração, com quem aprendi a fazer essa ligação da política com a cultura. O Carlos Pinto e o Tanah são dois pais artísticos para mim, duas pessoas que eu escuto mesmo, porque tenho muito mais o que escutar deles do que falar.

Qual sua opinião sobre a Secretaria de Cultura?
A secretaria não está envolvida com apenas um homem, que é o Carlos Pinto, mas todo um governo e eles não concordam com a política cultural desse governo. Estou falando do Carlos Pinto como pessoa, artista, figura cultural da cidade. Tenho muito respeito por ele, quem não tem? Pode até não concordar e criticar o que ele está fazendo, mas vai falar o quê? Que o cara não sabe? Que ele não é uma figura da cultura? Eu duvido que, aqui nessa cidade, alguém diga que o Carlos Pinto não é uma figura da cultura, assim como o Tanah. Agora, críticas têm. Não tem tanta crítica ao PT, ao governo do Papa? Só que também tem muita aprovação.

Eu apoiei o Aquino, não tenho nenhum problema com isso, não me arrependo. Quem entrou foi o Paulo Alexandre Barbosa.  Devemos trabalhar com ele e para o bem da cultura da cidade e de todos, sem ficar atacando à toa. Tive alguma relação com o PSDB, estudei com o Bruno Covas, fomos amigos de conviver na mesma casa. Não estou dizendo que sou a favor do PSDB. Sou marxista e leninista.

Matéria no jornal A Tribuna de 12 de setembro de 2007


Por quê apoiou o Aquino?
Não se deve virar as costas para um governo que teve muita coisa boa. Discutimos bastante dentro do partido e chegamos à conclusão de que apoiaríamos o Aquino por conta de uma série de motivos. No meu segmento cultural, para mim, deu um boom na cidade, não tem como falar que não deu. Por que na época do Beto Mansur não tinha muita gente conseguindo trabalhar na área e agora tem? Mas as portas da secretaria não estavam fechadas, quantos projetos ela acolheu? Tem erros, sim, mas muitos acertos.

 

Quem ganhou a eleição não foi o prefeito que eu apoiei, mas se precisar de mim para um bem da cidade, eu, com certeza, estarei lá. Já fui e não sou mais um cara que senta no sofá e só porque o meu partido não ganhou, critico o outro. Me coloco à disposição para ajudar em um bom governo, como todo mundo deveria se colocar, porque é para o bem da nossa cidade.

Apoiei o Aquino, mas já fui até à Praça Independência em um carro de som, na época do governo do Beto Mansur, Secretaria do Carlos Pinto, para defender o FESTA. Acho que tudo feito na democracia, dentro do respeito, é válido. Agora, se vamos ter que trabalhar com o Paulo Alexandre, vamos trabalhar. E eu espero que ele faça um bom governo, é o que todo mundo espera. Ele teve bastante confiança da cidade. Tenho fé.

Tenho fé no candomblé, na igreja universal, em todas as religiões, em tudo. Então, se uma pessoa me fala que vai fazer algo de bom, eu confio e tenho fé que faça mesmo.

Carrossel de Baco no Centro Cultural São Paulo 

E depois da sua saída do PT e a volta para o teatro, como foi dali em diante?
Fui conselheiro de cultura, entrei na faculdade de Direito, fiz apenas dois anos também. Entrei por causa da febre dos grêmios estudantis e toda a política envolvida.

Até lembro-me de um fato engraçado: dentro da faculdade de Direito da Unisantos: fiz um debate sobre a ALCA e chamei a historiadora Lilian Martins, a Maria Luiza, professora de Direito Internacional – eu adoro essa área também, fui até estudar por conta e era um dos Direitos que eu gostaria de me especializar – e um vereador da época, o Adegas. Ninguém achava que ele fosse, imagina! Na faculdade de Direito da Unisantos, com a juventude de esquerda em peso, você acha que ele ía? Não ía, né?! Eu não tenho nada contra ele, mas é uma figura.

Estava no teatro e comecei a ter uma visão muito profissional dessa área das artes cênicas. Via projetos acontecendo, eu sonhava, como o Galpão, o Sesc.

No final de 2003, fiz a encenação do José Bonifácio aqui em Santos. O Tanah dirigiu a peça e eu fiz o Dom Pedro I, o Alexandre Borges interpretou o José Bonifácio e a Bete Mendes fez a mãe do José Bonifácio, Julia Lemmertz fez a Maria Leopoldina e o Sérgio Mamberti era o Dom João VI. Estava entrando nessa época, ninguém me conhecia, mas o Tanah me deu o papel. E não era como em São Vicente, de dublagem; era fala mesmo. E eu contracenando com Sérgio Mamberti, umas cenas bem complexas e fortes, aí eu vi que aquilo era o que eu queria fazer da minha vida.

Conheci o Matheus Lopes, Flávio e o Conrado Pousa, de quem eu sou muito amigo desde os 8 anos de idade. Eles estavam saindo do grupo Orgone. O Conrado jogou basquete comigo, fizemos uma série de coisas. Eles saíram do grupo e nos reencontramos num boteco em que o Conrado estava tocando. Estávamos Beto Santos, Rosane, Paulo, uma galera com quem eu convivia do teatro. E a gente decidiu que ía para São Paulo montar um coletivo. Acabamos não indo.

Reencontrei novamente o Conrado e os outros caras no Almanaque, que fez parte da minha vida nessa época, e, naquele dia, decretamos que íamos fundar um grupo de teatro e, assim o Teatro do Pé nasceu, em dezembro de 2004. Fechamos o projeto em uma reunião e convidamos o Matheus para dirigir e ali, eu participava da fundação de um projeto que é um dos mais importantes da minha vida e uma das histórias mais lindas que eu vi de arte.

O Conrado era iluminador, aliás, ele é um dos maiores iluminadores de teatro que já conheci na minha vida. E do jeito dele, indo a umas reuniões, faltando em outras, ele estava sempre ali dando uma força.

Logo depois, convidamos o Olavo Dada, que era o dramaturgo do Teatro do Pé. Então, posso dizer que, participaram da fundação do grupo Teatro do Pé na fundação: Mateus Faconti (diretor), Danilo Nunes (ator), Mateus Lopes (ator), Wagner Bastos (ator) e Olavo Dada (Dramaturgo). Depois, tivermos outros parceiros como Theo Cancelo, que foi fazer a direção musical, Marcela Martins, foi dar aula de canto. A Cristina Biz fez a parte de fonoaudiologia, a Nathalia Freire era coreógrafa, Maradei era preparador corporal, Alexandre Birkett era um dos professores de música, Lincoln Antonio ajudava a gente a fazer umas pesquisas. Foi um trabalho bem sério e rígido, ali eu aprendi disciplina.

E o Teatro do Pé continua?
A gente tinha dado uma parada. Mas voltamos a nos encontrar para pesquisar.

Quantos espetáculos já fizeram?
Nós fizemos uma média de 170 apresentações no Brasil inteiro, dava para escrever um livro. Temos até um diário de bordo em que escrevíamos sobre as nossas reuniões. Está tudo com o Matheus Lopes. Nós fomos muito premiados, com apenas uma peça, ganhamos vários festivais. Foi uma época muito boa, em que entramos para os grandes circuitos. Foi também quando surgiu a Trupe Olho da Rua. Começaram a surgir muitos trabalhos profissionais, o Orgone já existia também, Tescom, Trupe Tralha Médica. Me arrisco a dizer que foi um dos primeiros movimentos de trabalhos profissionais da região, quando esses grupos se juntaram para formar o chamado Círculo Teatral da Costa da Mata Atlântica. Não lembro de ter visto nada igual. Era bem legal.

Quando o Teatro do Pé ganhou o Viagem Teatral, entrou o Leandro Taveira, que virou o produtor e está no cargo até hoje.

Quando eu entrei no teatro, conheci o Zéllus e foi ele quem me deu meu primeiro trabalho remunerado de arte, que foi na Trupe Tralha Médica. Nós ficamos muito amigos, uma relação como a de pai e filho, irmão. Ele participou de todo o crescimento do projeto e de tudo que eu fiz dali em diante. Me influenciou em muitas coisas.

Nessa mesma época, comecei a estudar e pesquisar muita coisa sobre a cultura popular brasileira, focando na cultura caiçara, que resultou no Carrossel de Baco.

 

E a música, como ficou?
Nessa época do Teatro do Pé, comecei a estudar música. Já tinha uma noção de percussão. A Marcela dava aula de canto para o grupo de teatro e eu pagava para ter aulas particulares também. Conheci o irmão dela, que me chamou para fazer umas canjas na noite e eu comecei a gostar da parada. Isso foi, mais ou menos, em 2005. Me juntei com outros caras, o Felipe e o Lucas, e fundamos o Carrossel de Baco. Entraram também um ator, que estava desenvolvendo uns estudos de percussão e dois caras que vinham do samba, o Cazé o e o João, além do baterista Renato Macari.

A primeira apresentação do Carrossel de Baco foi no Rádio City Café e, na sequência, na Cadeia Velha. Mas a primeira casa que a gente entrou para tocar foi o Torto. O Michel deu uma remexida no nosso trabalho, com toda a sua malandragem da noite, ele tem uma participação muito grande nessa formação.

O Carrossel não foi o meu primeiro projeto musical. Tinha feito o espetáculo chamado “Seu Samba”, dirigido por Paulo César Luz. Numa entrevista que eu dei nessa época, eu falo quais foram as minhas referências, que estava na contramão de todo mundo da música, pois eram Zéllus Machado, Jair de Freitas, Luiz Claudio de Santos, Paulo César Luz… e eu comecei a cantar as músicas deles. E as coisas foram acontecendo.

Depois, percebi que não queria ficar dependendo mais de ninguém para ficar tocando para eu poder cantar, então comecei a estudar violão. Fiz umas aulas com o Birkett e fui aprendendo sozinho também.

Fiquei sete anos tocando com o Carrossel até resolver gravar um disco.  E nós só tocávamos músicas autorais nossas ou de outros companheiros. Então, era uma coisa engraçada: nossa banda era vista como a ovelha negra, que nunca tocava nenhuma música conhecida, até ir conquistando público. Tivemos momentos no Torto em que eu fique muito feliz, casa cheia, galera gostando.

E nessa época a música foi aumentando na sua trajetória e o teatro diminuindo?
Sim, e o Zéllus foi o meu grande parceiro. Além disso, nesse processo, entre a música e o teatro, ainda teve o cinema. Eu fiz alguns filmes.

E como foi isso?
Minha primeira participação foi num elenco de apoio da minissérie “Um só Coração”. Eles vieram gravar em Santos e o Carlos Pinto e o Tanah foram me indicando para as coisas, alguns clipes também. O Dino Menezes foi um grande parceiro dessa época do vídeo, fez diversos clipes do Carrossel de Baco, até ganhamos prêmio no Curta Santos.

Como é essa relação dos artistas que só tocam músicas autorais com o público? É mais difícil ganhar dinheiro, precisa se sujeitar a fazer covers? Como vocês encaravam a reação da plateia quando tocavam as músicas autorais?
Primeiro, que já era um trabalho diferente porque eu colocava uma saia e a galera já parava para ver, pelo menos. Tem até uma matéria que o Julinho Bittencourt escreveu sobre o Carrossel, dizendo que o Zéllus foi uma grande influência para o grupo. E foi mesmo. Mas sobre as músicas autorais, tivemos as mesmas dificuldades que outras bandas no Brasil inteiro.

Eu, particularmente, vejo Santos como um dos lugares mais complicados por uma série de coisas. Não está ligado ao público ou às casas, mas aos artistas e o público. O artista rouba o show, o público vai na onda. Cada vez mais, temos público apenas para entretenimento. Uma vez me perguntaram por que eu cantava tanta música autoral. Eu respondi que a música inédita, era, exatamente, a que precisava de mim, porque a música do Caetano já acontece, não está precisando de mim. Artista tem que trazer alguma coisa, tem que ter essa coragem. E quando tem, não quer ter, ele quer ser aplaudido. Então, ele cede e se prostitui. É uma pena.

Você encara como prostituição cantar as músicas de outros artistas?
Não, encaro como prostituição um cara que toca uma música sem estar a fim de tocar, mas toca só para receber os aplausos, largando tudo em que ele acredita para fazer algo que já existe. Entrar em um circuito que já está aí e é puro entretenimento.

Danilo e o Carrossel na Primeira Virada Caiçara 

Mas em termos financeiros, é músico e depende da grana para viver. Como fazer isso?
Como se faz para criar um mercado pelo qual você quer sobreviver? Se eu não criar esse mercado, vou estar sempre nas costas dos outros, à sombra dos outros. E a releitura? Quando faz releitura, piorou. Porque uma coisa é ser cover, como um cara que imita o Elvis, canta com a voz igual a dele, com as roupas que ele usava, mas pelo menos assume que é cover. Outra é fazer o máximo que você puder igual, mas fingindo que é a sua releitura, não dá.

Você encara as músicas do Carrossel de Baco como MPB?
Não. Aliás, sim, é música popular brasileira, não deixa de ser. Mas não é uma “MPB Chico Buarque” e etc. Não é uma MPB como as músicas que são rotuladas dessa forma. É música popular brasileira, assim como o rock que é música popular brasileira, o samba, o pagode, etc.

Se você tivesse que definir em uma palavra, qual seria?
Uma vez definiram como tropicalista caiçara urbanoide. Por quê? Tropicália é uma influência forte, o caiçara também e eu sou urbano. É óbvio, mas eu não defino assim o meu trabalho. Na verdade, não posso definir o meu trabalho. As pessoas que tem que fazer isso, né?! Mas acho que é isso, Raul Seixas, de tropicália à manguebeat.

Quantos CD’s você lançou?
Lancei só um CD solo. Até porque o Carrossel já mudou sua formação diversas vezes.

Como é o seu processo de composição?
Tenho duas formas. Sou muito chato, porque sou uma pessoa bem técnica, por pesquisar muito. Mas na maioria das vezes que eu vejo toda a parte técnica antes, não saem coisas legais. Quando eu deixo rolar e cuspo, para só depois colocar a técnica, aí sim, fica mais interessante. No momento, estou querendo compor com parceiros, como Castro Alves, do Saramandaia, com o Daniel Paulista. Quero ampliar esse leque, gosto de parcerias. Às vezes eu faço a letra, o outro faz a melodia ou ao contrário, depende. Com o Marcio Pavesi, eu fiz duas músicas recentemente. Uma é chamada “Pátria Amada” e a outra “Já Cansei de Desamor”, em parceria também com a esposa dele, poetisa, fotógrafa. Gosto bastante dos trabalhos dela.  Com uns eu trabalho de um jeito, com outros, de outro. Inclusive, estou com uma letra do Zéllus que estou fazendo dela um tango, “Vida, porre e cinema”. Um exemplo, “Princesinha do Mar”, eu mandei a letra e uma parte da melodia, e Zéllus terminou a música.

Quando você compõe, pensa na pessoa que vai receber a obra?
Quando estou compondo, não penso em nada.  Acho que tudo depende de como você vai se comunicar, se fazer entender. Quando você grava uma canção, tem que primeiro saber o que quer com aquele disco, por meio dos arranjos, do seu visual, do show, dos instrumentos que coloca ali, da forma como você canta, sente e entende a música. Você tem que ter propriedade do seu trabalho, senão não há como o público entender. Eu me preocupo muito com a comunicação. No Brasil inteiro, a comunicação está junto da arte nas faculdades, como na ECA, da USP, Escola de Comunicação e Artes. É comunicar a sua expressão.

E o Carrossel é o trabalho que te mantém desde então?
Não, a banda não me mantém ainda. Isso ainda está sendo trabalhado, para fazer shows em outros lugares, viagens e tal. O que me mantém é o teatro, todas as produções que eu inventei de fazer. Além disso, a arte com educação: eu dei aula na Fundação Casa por dois anos, montei onze peças com eles. Tem adolescente que frequenta a minha casa até hoje. Recentemente, estou dando aula no Guarujá, no Morrinhos. Estou terminando a minha faculdade de História, por causa de toda a pesquisa com a qual eu trabalho.

Por causa do Carrossel, fui convidado para fazer outros trabalhos, então eu também tenho que me prostituir na música.  Tem duas pessoas que me ajudam muito, uma delas é a Iriene Santana, estilista, e a outra é a Maria Auxiliadora, que dá maior ralo, muita força mesmo, corre atrás de vários shows. A minha mãe também me ajuda muito, que é a mulher mais importante da minha vida e que está comigo em todos os momentos, corre atrás de tudo comigo. O meu irmão mais novo, André Nunes, também está sempre dando uma força, ele é músico e ator. E a Marisa, que sempre me orientou, agora está ajudando a produzir o meu segundo disco. Todas essas são pessoas muito importantes no meu trabalho. E o Zéllus é uma presença eterna na minha vida, tudo que eu faço, tenho certeza, que tem a mão dele.

Como você lidou com a morte do Zéllus?
Foi muito triste. Eu sou espírita, o Zéllus também era. Agora que eu estou voltando a algumas coisas. No começo, era muito difícil, sempre vinham muitas lembranças, não tem como fugir da obra dele, eu encontro em todo o momento. Tem hora que eu estou no palco, cantando uma música minha ou dele, e a voz embarga, é foda. Ele sempre estava nos shows, é difícil olhar e não vê-lo mais ali. Ele que me dava segurança, então foi muito foda.

Antes de acontecer tudo, ele veio até a minha casa, me deixou a obra dele inteira, tem músicas no computador, CD, roupas, tem tudo dele em casa. Ele me pediu para continuar todas as coisas que ele fazia. Para isso, deixou a liberação de todas as obras dele comigo, lavrado em cartório, reconhecido, patenteado.

E quando ele fez isso, deu para entender o que ia acontecer?
Ninguém sabe que vai morrer. Ele tinha muita sensibilidade, talvez. Tinha uma relação muito forte com a cultura celta. Fiz uma tatuagem em homenagem a ele. Na verdade, eu homenageei o Zéllus em todos os meus trabalhos, eu não faço um show em homenagem a ele porque ele está no meu show e na minha vida.

Alguém reivindicou alguma coisa?
Não. A família reconhece, são todos meus amigos. E jamais eu ia brigar com a família por causa de alguma coisa, não era isso que ele queria, nem é isso que vai ser.

E seus trabalhos atuais?
Estou trabalhando para lançar o CD Cavalo de Praia em maio ou junho do ano que vem, produzido pela Marisa de Freitas e Fernando Borgomoni. Tem alguma coisa do repertório já definida, duas músicas do Zéllus. Talvez seja assim: metade do repertório meu e a outra metade de parceiros como Zéllus, Julinho Bittencourt, Renato Borgomoni, essa galera.

Também estou escrevendo um livro, mas não porque eu quero escrever. É que eu tenho tanta coisa escrita, que pensei em juntar tudo isso em um livro. A maioria dos textos é formada por poesias, mas também tenho contos e outras coisas livres que não sei classificar. O meu objetivo não é lançar um livro, é colocar isso em público, soltar isso na praça. E eu vejo que o melhor caminho, é um livro.

Quero fazer dentro do esquema da editora caiçara do Márcio (Barreto), porque eu faço parte desse movimento de Arte Contemporânea Caiçara e também porque acho que o trabalho do Marcio é muito válido – ele é um agitador cultural, um cara que busca levar a questão caiçara adiante. E acho que a gente tem que estar junto. Temos várias divergências, algo até que enriquece muito, mas estamos sempre juntos.

Qual a sua visão da cena cultural da região e a relação entre os artistas locais?
Acho que o pessoal aqui tomou muito na cabeça e tenha começado a aprender a fazer o movimento cultural se juntar. Por diversos motivos, por muito tempo, prevaleceram outras coisas.

Tenho um amigo que foi o último a entrar na carreira musical e o primeiro a gravar um CD. Foi para São Paulo antes e me ajudou a entrar na cena por lá também. É o Bruno de La Rosa, eu o amo muito, não só o trabalho dele, como ele também. Aqui, ninguém reconhecia o trabalho dele, íam apenas ouvi-lo tocar Chico. O cara está sendo falado por Toquinho, por Chico, é uma das maiores revelações musicais brasileiras e ainda tem uma cidade com dor de cotovelo disso e que não reconhece o cara. Pode até não gostar da música, mas é preciso reconhecer o talento. Se o cara fosse da casa do caralho, aqui em Santos, iam dizer que ele é genial. Ele é muito mais genial do que gente que eu vejo sendo postada na internet por colegas, pessoal de São Paulo ou outro lugar. Para mim, o Bruno é muito mais genial que muita gente de fora que vem tocar na cidade, mas sabe por que não admitem isso? Porque isso é ego, dor de cotovelo, frustração e isso não pode ter. Enquanto for assim, o negócio não sai do lugar, não anda. E, justamente, quem fala isso é quem não tem trabalho gravado e faz apenas o convencional na noite, está só animando a festa, mas não está trazendo nada.

Danilo na Vitrolada 

Tem muito músico santista que tinha público e quando lança suas músicas próprias não consegue emplacar, porque a galera já está acostumada com o que tocava antes. Parece até que os caras tem vergonha de tocar as músicas autorais. Você tem que colocar músicas suas no show inteiro, só umas duas covers, não ao contrário. O show inteiro teu, cara. Gasta R$ 80 mil para gravar um CD e fica com vergonha de tocar as músicas depois? Então, não grava.

São essas pessoas que questionam a genialidade de alguém que, não só está trazendo coisas novas para a música popular brasileira. Temos que pensar qual a cena que queremos, e não é para agora, é para daqui a uns anos. Você quer um bando de frustrados falando mal do Brasil inteiro? Um matando o outro? Ou a região, realmente, ser um celeiro cultural?

Como é sua rotina hoje?
Toco em muitos lugares em Santos e faço também bastante coisa fora. Depende da época. Não desisto, cara, até porque não tenho mais aquela cabeça que eu tinha com 8 anos, que pensava em tudo isso só por conta da fama. Se você tem o que falar, não vai desistir nunca, vai continuar fazendo, produzindo, falando.

Você acha que esses festivais, como o Mirada, Festa, Curta Santos, Tarrafa, suprem a demanda artística local?
acho que são uns baita festivais, um grande trabalho de enriquecimento cultural para a cidade. Mas estão dialogando, ainda, muito pouco com os artistas locais. Exemplo: a Tarrafa, de literatura, tem alguns escritores de Santos e tal. Entre os shows, vem o André Abujamra, Deus e o mundo. Mas e o Carrossel de Baco, Olhos de Carla, Percutindo Mundos? Porra! Aí eu me coloco na posição de produtor local, que tenta lançar coisas autorais há anos, com projetos na praça e nunca recebi um convite para fazer som na Tarrafa Literária. E eu tenho vários trabalhos com poesias, o Percutindo Mundos e outros também fazem trabalhos poéticos, lindos. Essa é uma oportunidade de mostrar o trabalho da cidade, lançar músicas novas.

É legal trazer coisas de fora, enriquece, mas tem que lançar coisas daqui também. Não é entreter só. E isso que estou falando está dentro da proposta de todos esses eventos.

Esse ano, o Curta Santos fez uma coisa maravilhosa: na abertura tinham vários artistas da região. Não é enfiar esses caras para fazer um show do Caetano, é lançar os trabalhos daqui. Qual o preconceito com o trabalho que vem sendo feito na cidade? Vai colocar o Bruno de La Rosa para ele ir lá e tocar Chico ou o CD dele? Esse preconceito existe e a cidade não reconhece.

A gente sai daqui, vai para fora e é reconhecido pelos grandes nomes. Mas aqui na cidade, ninguém reconhece, uns por frustração, outros porque acham que não tem nada a ver com o estilo deles. O Bruno Conde não é do meu estilo, mas não posso dizer que ele não é bom no que está fazendo. Lógico que é. Essa é uma grande tristeza.

A imprensa local dá espaço?
Sim, mas poderia dar mais. Quando eu corro para buscar imprensa, ela vem, nunca tive problema. No Sesc, durante o Mirada, tem show toda noite, mas a programação vem toda de São Paulo. Eu mesmo fui lá perguntar se a programação não poderia ser feita com artistas de Santos. Mas será que se fossem os shows do Carrossel, do Percutindo, daria o fuzuê todo que dá lá? Tem que dá, porra, por que não dá? Não perde nada para os trabalhos que estavam lá, podem falar o que quiserem, mas não perde nada. Não quero falar nomes, nem lugar, mas tem gente que veio no Sesc, em São Paulo, há pouco tempo atrás e não gostaram do show dele, mas gostaram do meu.  Não por que sou melhor, mas por que existem vários tipos de gosto.