Débora Gozzoli

e Rachel Munhoz

Fotos: Acervo pessoal/Débora Gozzoli

Neta, filha e irmã de músicos, não seria nenhuma surpresa a pequena Débora Gozzoli ter o dom para tocar algum instrumento. Depois de assistir ao seu primeiro show de choro, a menina nunca mais largou a flauta, recebida de presente dos pais com um bilhetinho que ela guarda até hoje.

A musicista quase se distanciou: estudou veterinária, casou, foi mãe duas vezes, mas jamais conseguiu se desvencilhar do som que tanto a apaixonava. Se tornou professora e, aos poucos, foi conhecendo figuras importantes que marcaram a trajetória de sua carreira.

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Hoje, leva o choro para diversos cantos de Santos e outras cidades. Às sextas, se apresenta ao lado do grande parceiro musical, Marcos Canduta, na calçada em frente à Realejo Livros, com o projeto Choro de Bolso. Até quando estava gerando seu primeiro filho, Débora não largou a flauta. “Quatorze horas antes dele nascer, eu estava tocando em Bertioga”. Levava o garotinho ainda pequeno às apresentações e amamentava nos intervalos.

Em entrevista exclusiva ao CulturalMente Santista, a talentosa Débora, 42, apaixonada por Chico Buarque, relembra o início da relação com a flauta, início de carreira, o período em que fez faculdade, os grandes parceiros e o celebrado Choro de Bolso. A conversa rolou no apartamento da flautista, e foi seguida por café e uma deliciosa torta doce.

Com José Simonian, julho de 1997


Como você começou na música?
A primeira lembrança que me vem a cabeça quando penso em música é minha mãe lavando roupa no quintal, enquanto meus irmãos e eu brincávamos, e ela ficava cantando hino nacional, da bandeira, independência. Não tínhamos militar na família, mas meu avô era maestro de bandas e minha mãe fazia questão que nós soubéssemos.  Eu devia ter uns três ou quatro anos. Lembro muito de ver meu avô regendo e minha mãe também acabou pegando gosto pela música, tocava órgão na igreja. Hoje, minha irmã mais velha toca piano e meu irmão, Edmur Viana, toca violino, assim como eu que também acabei enveredando para a música.

E quando você começou a estudar música?
Minha mãe colocou meu irmão e eu para aprender flauta doce na igreja – eu tinha 13 anos. Depois de um tempo estudando, ele quis aprender violino. E eu, um dia, assistindo a um programa de choro na TV Cultura, me apaixonei pela flauta transversal brilhando nas mãos de uma menina.

Minha mãe começou a procurar professor aqui em Santos e conheceu o Marcos Martins, que tocava na Sinfônica. E eu comecei a fazer aula com uma flauta emprestada dele. Aí eu vi que tinha um som completamente diferente, fiquei deslumbrada, até porque o Marcos era demais, ele tocava muito.

Primeira aparição do Trio Choratta (Sesc Bertioga, 25/12/1999)

Quando meu professor saiu, por ter passado para uma sinfônica da Alemanha, passei a fazer aulas com o José Simonian. E era engraçado, porque o Marcos era todo erudito, sério e esse novo professor era cabeludo, barbudo, com sandálias de couro (risos). Eu fui quase uma aluna eterna do Simonian, estudei outros instrumentos como saxofone. Sofri a transição de passar de aluna para professora, mas nunca deixei de estudar com ele.

E como foi a mudança de aluna para professora?
Me tornei professora assim que me casei. Eu larguei o emprego por causa do casamento e acabava ficando muito tempo em casa sozinha. Acabei, inclusive, passando por um princípio de síndrome do pânico. Até que um médico disse que eu precisava fazer algo, ocupar a cabeça. Eu já tinha sido convidada para dar aulas, mas nunca pensei que pudesse fazer isso. Até que precisei fazer algo da vida e a música era algo que eu sabia fazer e podia passar a outras pessoas.

O que vocês ouviam de música em casa?
Quando apareceu a primeira vitrolinha lá em casa, todos ouviam Chico Buarque. E nós ouvíamos como algo sagrado, era um acontecimento no dia. Quando meu pai chegava com o disco do Chico era “o momento”. Foi o que eu escutei mais na minha vida.

E aquilo rodava todos os dias. Íamos dissecando todos os encartes, as letras, era muito bom pegar o disco na mão, com todo o cuidado. Hoje, as pessoas não fazem mais isso, uma pena. E meu irmão também ouvia muita música clássica, por causa dos estudos do violino. Então, em casa, tínhamos muitos discos. Quando eu tinha 16 anos, eu vi, pela primeira vez, um show de choro ao vivo. E aí ouvi o violão, violão de sete cordas, cavaquinho, bandolim, clarinete, saxofone e o pandeiro. Foi marcante para mim, achei uma delícia de som. Daí, comecei a seguir esse caminho.

Trio Choratta na formação atual: Marcos Canduta, Débora e Edmur Vianna, Sesc Bertioga (2000)

Quando começou a tocar com banda?
Fiquei um tempo com os meninos do Regional Varanda, a formação era incerta, com inserção de vários instrumentos, por vezes com piano, timba, surdo. A gente tocava quase toda semana, mas eu nunca recebi dinheiro para isso. O primeiro pagamento que recebi tocando foi em casamento. Nessa época, meu irmão já era o rei dos casamentos aqui em Santos, ele já tinha tocado com todos os organistas da Cidade. Então, ele passava alguns trabalhos e assim fui recebendo alguns cachês.

Fez alguma faculdade?
Parei de tocar e estudar música para fazer a faculdade de Medicina Veterinária, em Londrina (Paraná). Desde pequena, eu gostava de bichos. Meu pai me apoiou muito, porque não queria que eu fizesse faculdade de música. “Viver de música?” (risos) Nesse período, tocava de vez em quando, sozinha, muito pouco. Nunca tinha pensado na música como trabalho, era só um hobby. Talvez, tenha faltado alguém para me dizer que eu podia trabalhar com música, não sei. Não cheguei a me formar. Foi muito complicado, estava sozinha, em outro estado, um lugar que não tinha mar. Acabei atrasando algumas aulas, falava com minha mãe só por correspondência, era muito solitário. Um dia, estava na fila da rematrícula, fiz, mas sabia que ia largar a faculdade. E em 1993, voltei para Santos. Um ano depois, me casei.

Choro de Bolso e Aleh Ferreira (22/07/2006)


E como voltou para música?
Comecei a dar aulas e a coisa começou a se abrir. O Zé (Simonian) formou um quarteto de flautas. Tocávamos em vários lugares. Nos apresentamos em programas também. Era muito legal e eu comecei a ficar totalmente envolvida. Meu marido e a família dele não gostavam muito. Em 1998, o Zé começou a gravar seu primeiro CD e eu participei tocando flauta. Em um dos ensaios foi que eu reencontrei o Marcos Canduta. O conhecia de tanto vê-lo tocando com o Zé.

Com os ensaios, passei a conversar com o Canduta. Em uma de nossas conversas, comentei que achava lindas aquelas bandas que tocavam serenata, como trovadores urbanos. Achava o máximo você dar música de presente para alguém. E foi dessa conversa que passamos a fazer alguns trabalhos juntos: ele me chamou para tocar com ele no SESC Bertioga, em uma Mostra Espírita que teve música, dança, entre outras expressões. Foi uma época muito legal.

Até que o SESC Bertioga nos convidou para tocar músicas de natal, fomos Canduta, uma moça que tocava violoncelo, a Olívia, e eu. Assim, no natal de 1999, formamos o Trio Choratta.

Mas a Olívia era de São Paulo, ficava difícil ensaiar com ela. Com isso, em 2000, meu irmão Edmur entrou no trio. Foi na mesma época que eu fiquei grávida e as coisas começaram a ficar mais difíceis, mas fomos levando o grupo, cheguei a gravar com barrigão. Quatorze horas antes do meu filho nascer, eu estava tocando em Bertioga. Eu levava meu filho bem bebezinho para várias apresentações. Amamentava e ia para o palco.

Na Realejo, ainda dentro da loja (02/10/2006)

Já compôs?
Fiz apenas duas músicas na minha vida. É muito tenso compor uma música, é como um parto. Foi quando eu fiz um curso de harmonia com o guitarrista Aguinaldo Pereira e uma das lições era isso, compor. Fiz na flauta. O nome é “Agosto”.

A segunda, uma valsa, que não tem nome até hoje, a gente toca, de vez em quando, com o trio, na Livraria Realejo. Foi o Alexandre Birkett que fez harmonia e o Canduta fez um arranjo muito bonito.

Eu não compus mais porque é complicado, tenho uma jornada tripla. É difícil ser mãe, cozinheira, resolver as coisas e ainda estudar. Não dá muito bem para conciliar.

Quando começou o Choro de Bolso?
Foi quando o Zé (José Luiz Tahan) inaugurou a Livraria Realejo da rua, nós tocamos no primeiro dia. Eu sempre ia de bico. Na verdade, no dia da inauguração, era para tocar o Canduta e o (Luiz Antônio Guimarães) Cancello. Mas acabei tocando também. Nós retornamos quando o Zé fez o segundo convite para tocar na livraria e, assim, surgiu o Choro de Bolso. Nossa formação é tradicional com violões e a flauta. O nome é pelo grupo ser reduzido, compacto, você pode levar fácil, para qualquer lugar (risos). Antes, a gente tocava dentro da loja. Mas depois fomos para a calçada e de lá não saímos mais. É uma experiência maravilhosa, eu adoro.

Com o cartunista Jaguar, na Realejo (21/08/2006)


Depois do Choro de Bolso, tocou em outros grupos?
Quando meu segundo filho nasceu, em 2002, meu irmão dava aula no conservatório Henrique Oswald. Lá, estavam precisando de uma professora de flauta, então voltei a dar aulas. Cheguei a dar algumas aulas em casa, tive três alunos. O Canduta também acabou indo dar aula no mesmo conservatório. Ele se reunia, uma vez por semana, com a Rosana, que toca cello, mas esse duo acabou virando trio porque o Bamba, marido da Rô passou a tocar com eles. Até que eu também me envolvi e formamos o quarteto. Nós chegamos a tocar bastante, desde Villa-Lobos, Benito de Paula, Chico Buarque, Tom Jobim… é incrível. Muito divertido quando a gente toca.

Quando está em casa, o que você escuta?
Em casa é muito difícil ouvir música, porque estou sempre fazendo uma coisa ou outra. E eu gosto de ouvir prestando atenção. Poucas vezes, a casa está vazia. Eu ouço muito Chico Buarque no carro. Eu tenho uma grande paixão por ele, acho perfeito, ele é demais, tenho fotos, DVD autografado. Fui a um show dele, chorei. Não sei se ele remete a minha mãe, ficou um laço muito carinhoso entre as músicas do Chico e a minha família.

Junto do ídolo Chico Buarque


Você ouve outros tipos de música?
Escutei rock na minha fase rebelde, aos 13 anos. Até hoje, acho que tem algumas coisas interessantes. Acompanhei bastante o rock nacional, sei cantar ainda a música “Faroeste Caboclo”, da Legião Urbana. Ouvia Paralamas do Sucesso, Plebe Rude, Capital Inicial. Tenho escutado muito rádio para ouvir notícias. Não vejo nada na TV aberta. Gosto muito de séries, “Criminal Minds”, entre outras. No cinema, só filme infantil ultimamente, com os filhos.

Toca outros instrumentos?
Comecei a estudar saxofone, mas a embocadura era diferente da que eu uso na flauta.  Comecei a ficar com uma parte da boca um pouco inchada, o que prejudicava na hora de tocar a flauta. Mudava o timbre. E eu não quis sacrificar o som da flauta por causa de um saxofone. Meu sax ficou anos guardado até que acabei tomando coragem e vendi. É uma pena deixar instrumento guardado, eles foram feitos para serem tocados.

Com o Carobamdé no Teatro Coliseu, Semana Villa-Lobos, 08/03/2007


Quantas flautas você tem?
Tenho três. A primeira, que meus pais deixaram de presente, com um bilhetinho que eu guardo até hoje. O Marcos foi com a minha mãe comprar, em um leilão no Centro de Santos. É o modelo mais simples que eu tenho, mas essa eu não vendo. A segunda foi o primeiro instrumento que eu comprei com o meu dinheiro, uma mais cara, comprada em dólar, mas ainda não era a ideal.  A terceira eu encomendei em um encontro de flautistas. Experimentei uns modelos nos stands, até uma de ouro, que custava cerca de 30 mil dólares, sem condições (risos). Acabei gostando mais do som da Miyazawa  de prata. Fiz umas mudanças nela, coloquei umas chaves a mais, o tubo mais grosso, entre outras coisas. Ela é de Iowa.

Seus filhos estudam música?
Ainda não. Estou criando coragem para dar flauta doce para eles e ver o que acontece, mas não sei se vai fazer muito efeito pelo fato de ser a mãe. Não dá muito certo ter aulas com a mãe, a gente trata diferente. Eu dou aula para a minha sobrinha. Com ela, ainda consigo separar. Ela é minha única aluna, que inclusive, usa a minha primeira flauta.

Débora e Canduta recebem o troféu Brás Cubas (01/05/2008)

 

Hoje, como é sua rotina?
Eu dou aula, duas vezes por semana, no projeto Guri, à tarde, terças e quintas. E tenho minha sobrinha, como aluna. O tempo é algo complicado, por causa dos filhos e a casa. Estou tentando tirar um choro do Valdir Azevedo e essa música é complexa, porque é feita para cavaquinho. Quando a canção é feita por um flautista, é diferente. Tem umas coisas que, para as cordas é fácil, mas para a flauta é muito difícil. É um choro bonito para caramba, que eu quero tocar na Livraria Realejo. Falta tempo para estudar.

Já tocou sozinha?
Toquei uma vez, em um casamento. Entrei com as daminhas. Mas nunca fiz solo. Não sei se é herança da minha mãe, porque ela sempre dizia que tocar junto é tão bom. Acabei pegando isso dela.  Tem vezes que é difícil tocar com outras pessoas, é preciso ter entrosamento. Com a família, sempre foi fácil, você olha e sabe o que está pensando. Com o Canduta também. Quando não combina, é muito chato. As pessoas podem não perceber, mas você percebe, é ruim.

Samba com Julinho Bittencourt (de chapéu), Edinho e Choro de Bolso - Sesc São Caetano (23/11/2011)

 

Erudito ou popular?
Acho que o popular. Minha linguagem sempre foi mais popular, mesmo no erudito. Eu só não gosto de axé, pagode. Adoro samba, aquele samba mesmo. Erudito, sendo bem tocado, é uma coisa linda. Só não gosto desses concertos modernos: dou risada, não posso escutar.

E outros músicos que você acompanhe?
Um que eu gosto muito de escutar, porque ele mistura bem, tem uma pegada diferente, é o André Mehmari. E tem o Toninho Ferragutti, que toca acordeom: a música dele é demais.

Como é essa relação com o Canduta e o Julinho Bittencourt?
O Julinho, a primeira vez que eu vi foi no bar Torto, acho que em 1999. Ainda cabeludo, barbudo. De vez em quando, ele passava na Realejo. Quando o Julinho voltou de Brasília, começou a frequentar sempre a livraria e começou a pedir para colocar letras nas músicas. Foi assim. Essa relação com ele e o Canduta, que conheço há mais tempo e é meu parceiro musical, é uma delícia. Somos amigos. É minha família. Acho que até em virtude da falta que meus pais fazem (Débora se emociona e chora).

Trio Choratta e Edinho, Teatro Municipal, homenagem à Jacob do Bandolim, 14/08/2011

 

Como você enxerga o público santista para a música?
Acho que eles participam bastante. A aceitação costuma ser muito boa. Chegam algumas pessoas novas lá na frente da Livraria Realejo, no dia das apresentações do Choro de Bolso. Pessoas da cidade, mesmo, que nos perguntam se estamos sempre tocando ali. Dizemos, só vai fazer sete anos (risos). 

Já participou de muitas gravações?
Não muitas, mas eu detesto gravar. Não gosto do registro, sou muito crítica. Quando é em vídeo, fica um pouco camuflado e ainda tem a imagem para ajudar. Eu sofro muito quando preciso gravar. No primeiro momento, escuto e gosto. Mas quando ouço mais vezes, começo a reparar mais. Daqui há um mês da gravação, eu desligo no meio. Não quero mais escutar. É muito difícil.

O que você diria para quem quer aprender flauta?
Como a embocadura é livre, precisa ter paciência, precisa gostar. Eu sempre falo para os meus alunos que é preciso se dedicar. Escutar não apenas flautistas, mas também a mesma música tocada por outros instrumentos, com voz, para se ter outras ideias. O legal não é você tocar igual a alguém, mesmo que admire esse músico. O importante é você ter o seu próprio som.

Algumas apresentações de Débora:

Julinho Bittencourt, Canduta e Débora executam choro “Saudades de Minha Voz”, parceria de Julinho com José Simonian, presente no CD “Caiçara”, de Julinho (noite do CulturalMente Santista, 06.04.2012)

Choro de Bolso toca “Feitio de Oração”, na TV Primeira, de São Vicente

Choro de Bolso toca “Flor Amorosa”, no Sesc Santana