Julinho Bittencourt

Fotos: Acervo pessoal/Julinho Bittencourt

Não dá para falar da música na Baixada sem falar de Julinho Bittencourt. Afinal, ele participou de vários momentos importantíssimos da cultura da região durante sua trajetória: militou culturalmente na época do regime militar, integrou a banda Jornal do Brasil, fundou e dirigiu duas das casas noturnas mais célebres da cidade: o Bar do 3, já fechado, e o Torto MPbar, o qual ficou à frente por 18 anos e é referência de boa música.

O músico e jornalista nasceu em 10 de março de 1961. É casado. Tem duas filhas: Beatriz, de 20, e Ana, de 16 anos. Estudou no Colégio Santa Cecília e fez o Ensino Médio no Independência. Ingressou, em 1979, na Faculdade de Comunicação Social.

Atualmente, dirige a comunicação do Ogmo, se apresenta com os amigos Marcos Canduta e Débora Gozzoli e prepara algumas boas surpresas. Entre elas, seu primeiro espetáculo teatral e um CD. Colabora com o jornal A Tribuna e a revista Fórum – Um Novo Mundo é Possível. “É uma publicação da editora Publisher, de São Paulo. O editor-chefe é o jornalista Renato Rovai, conhecido blogueiro e ativista, nascido na Praia Grande. A revista é inspirada no Fórum Social Mundial. O primeiro número foi concebido para acompanhar e cobrir o primeiro fórum em Porto Alegre, em 2001. É uma publicação mensal, claramente de esquerda, ligada aos movimentos sociais”, diz. Essa atenção aos detalhes, a convicção e a paixão na hora de se referir às atividades com as quais está envolvido pode ser percebida ao longo da entrevista que Julinho concedeu ao CulturalMente Santista, em plena segunda-feira de Carnaval, na Realejo Livros.

Um momento que lembro especialmente dele, foi vê-lo cantando “Balada do Louco”, clássico dos Mutantes, no auditório da UniSantos, na comemoração dos 10 anos da intervenção no Anchieta, quando estava ao centro na mesa que tinha figuras como a ex-prefeita Telma de Souza e o então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva.

A seguir, Julinho relembra seus primeiros contatos com a música, a juventude, a faculdade, o período em que dirigiu o Torto e, depois, o Bar do 3, a temporada em Brasília, o retorno a Santos, comenta os próximos projetos. E deve causar polêmica. “Essa cultura ao rés do chão, ao pé, completamente desprovida de inteligência, é um negócio que apela só para os sentidos. Ela começa com a Xuxa. Acho assim, cara, sem medo de exagerar: as pessoas que colocaram isso (a Xuxa) no mercado, precisavam responder criminalmente pelo que fizeram com as nossas crianças nessas últimas gerações. Está aí a dimensão da demência”, dispara, quando perguntado sobre Michel Teló.

Confira o papo imperdível.

Jornal do Brasil

Conta teu início na música…
Pra falar a verdade, foi quando eu fui preso…

Por causa de quê?
Fui pego puxando fumo…

Quando?
Isso foi em 1975, tinha 14 anos. Foi um transtorno em casa, como lidar com isso. Meus pais foram compreensíveis, lidaram bem com a coisa, mas era uma época diferente. Na época, era como aquela história daquele filme “Bicho de Sete Cabeças” [dirigido por Laís Bodanzky, em 2001], que o autor do livro [Austregésilo Carrano Bueno], que já foi no Torto, chegou a ser internado. Hoje, a gente vê 30 anos depois, parece estapafúrdio, mas não era. Tive vários amigos que viveram a mesma coisa, mas era um transtorno que era suficiente para eu ficar em casa. Fiquei recluso. Meu pai tinha medo de que eu fosse preso, que a polícia fizesse isso ou aquilo. E aí, nesse meio cárcere privado, eu tinha um violão em casa. E minha casa era muito musical. Meus pais me tiveram muito cedo. Eles ouviam essas músicas que tocavam nos festivais, que o pessoal ouvia na época: Gilberto Gil, Chico Buarque, etc. Eu lembro de várias cenas na minha casa, dessas coisas estarem rolando. E os Beatles também. Que eram uma presença fulminante. E, por outro lado, uma coisa que eu tenho muito forte, vem daquela época, o rock’n’roll. E [o gênero] era meio como é até hoje. O rock tem aquele negócio de ir além da música, aquela coisa de atitude, comportamento, e que, desde moleque, você já se identifica, já acha legal. Queria ser o John Lennon, cara. E aí tive um violão. Meu pai tinha um violão. Ele tentou aprender, tinha um bom violão, Di Giorgio. Peguei aquele violão e comecei a aprender sozinho.

Então é autodidata?
Só fui estudar violão anos depois. Na verdade, comecei a estudar quando eu já tocava na noite. Já compunha. Com 15 anos comecei a tocar violão. Tocar, tocar mesmo, de ver, imitar os amigos, enfim. Nos primeiros anos, estudei violão e música com o grande guitarrista José Roberto Araújo, um nome imprescindível na minha formação musical. Subia a serra todas as semanas durante vários anos para estudar. Na época, não existiam escolas de música popular em Santos. Ao mesmo tempo em que tocava, que eu aprendia os acordes, compunha. Queria fazer música. Sempre tive essa ansiedade, para compor. Minha família participava, achava engraçado. Então a música foi uma espécie de substituta dessa vida “barra pesada” que eu tinha, e que, de certa forma, era mesmo. Parece exagero por um lado, mas por outro não. Na época, a gente andava solto. 13, 14 anos, pegava onda, andava solto pelo mundo. A lembrança que eu tenho era de acordar, nas férias, de manhã, ir para a rua e só voltar no fim do dia. Passar em casa pra comer, sair de novo. Hoje os pais têm medo maior, controle maior, até porque hoje o mundo é mais barra pesada, né?

Mas você tinha essa liberdade, mesmo vivendo na época militar?
Aí é que tá. Esse tipo de medo… Até então não tinha nenhuma militância política, nada. E a cidade de Santos que eu lembro, assim, era tipo uma fazenda em que a gente vivia. Apesar de ser bem urbanizada e tal, tinham cinemas. Mas aí você pega do canal 5 pra lá, tinha nada, cara. Isso não faz tanto tempo atrás. Eu lembro quando construíram o BNH [bairro Aparecida]. Aonde hoje é o Sesc, tinham os campos do canal 5, onde você podia jogar bola. Eu sempre brinco que duas decepções que tenho na vida é não ter jogado no Santos de Pelé e outra é não ter tocado nos Beatles (risos). Coisas de adolescente. E era uma época dos grandes, né? Eram os maiores: tinha Brasília, tinha o Maracanã como maior estádio do mundo. O Brasil era sinônimo de crescimento, que era uma herança de JK [Juscelino Kubitschek, 1902-1976]. O período militar, de certa forma, daquela maneira nacionalista deles fingindo, né, que o Brasil era o maior, o melhor…

Slogans como “Ninguém segura esse país”…
E essas coisas me circundaram a adolescência. E, de certa forma, me influenciaram com essa megalomania toda. É engraçado isso. Mas aí, entrou a música e mudou tudo. Aí começam a mudar as relações. Entram vários personagens na minha vida. E a gente se dá super bem. E a gente era amigo desde moleque, tocava junto e tal. Um era o Hansen.

O polêmico Hansen, que tocou no Harry?
Pô, a gente era super brother, meu. A gente se gosta. A gente tem um código nosso que vem de lá de trás, tem respeito, até politicamente. Ele fala algumas coisas que acho absurdas, mas mesmo assim não discuto com ele, e vice-versa. E havia muita intensidade nessa história do rock. Mas essas coisas parecem que a gente não escolhe: escolhem a gente. E quando minha música começou a se formar, quando virou a música que toco hoje, era música popular brasileira. E tinha aquele ambiente em casa, aquela MPB e os festivais, e tinha a questão política. E aí entra o meu pai Júlio [falecido em outubro de 2011] de novo, que foi da Juventude Comunista. Ele era amigo de Plínio Marcos. A primeira montagem de “Barrela” [em outubro de 1959, no II Festival Regional de Teatro Amador em Santos]. Eles trabalharam juntos. Meu pai tinha uma coisa da persuasão, que através dos anos a gente começou a ter muito atrito por causa disso, mas ele tinha essa coisa. E certa parte da minha vida isso me impregnou mesmo, e hoje acho legal esse sentimento solidário, de querer achar que o caminho justo é esse. Também é preciso lembrar de Roldão Mendes Rosa, Narciso de Andrade e Gilberto Mendes. Cresci com essas pessoas em casa. O Roldão, particularmente, era o diretor da escola onde estudei todo o primário, a escola Rio Branco, e depois foi meu professor de jornalismo na Facos.

Aí já começou a formar essa índole. Entrei na faculdade com 17 anos. Fiz 18 na Facos [Julinho ingressou em 1979 na Faculdade de Comunicação Social de Santos, atualmente pertencente à UniSantos]. Não achava que música era minha carreira, tinha medo. E até hoje, olho para trás e vejo que só consegui estabilizar minha vida com jornalismo, porque com a música é uma montanha-russa. Com a música você não consegue sobreviver.

E você já se apresentava na época da faculdade?
Daí vem o ambiente. Tive amigos que foram vitais na minha vida. Um deles é o Claudio Zaidan, da Rádio Bandeirantes, super conhecido pelo jornalismo esportivo. Ele era meu parceiro: a gente compunha músicas juntos. E o outro era o Wilson Mello, que é fotógrafo. Nos conhecemos e começamos a tocar. O Claudio era da palavra, de uma inteligência absurda. Tinha a mesma idade que eu, e tinha lido quilômetros mais que eu. E o Wilson que era a música, que era um flautista da [Orquestra] Sinfônica de Santos, e fomos amigos. Vou começar a lembrar, e cometer injustiça de vários outros nomes importantes. Mas a gente formou um grupo que se chamava Arrumação. E “Arrumação” era o nome de uma canção do Elomar [Figueira Melo]. E aí vem todo esse mundo do MPB na vida da gente. E na época que montamos esse grupo, nos convidaram pra tocar. Foi a primeira vez que toquei em público. O repertório era todo de músicas nossas, e quando não era nossa, era de cantores da MPB. E no mesmo dia, também tocava o Peito Rasgado, que era a banda do Zéllus [Machado, 1959-2012], da Rosy Padron, e do Marcos Canduta. E nesse dia (em 1980) houve uma intersecção de gente importante. Gonzaga cheio. Daí eu olho para um monte de gente de preto gritando “toca Raul” (risos). Dava até medo na primeira vez. Algo que até hoje, em 30 anos de profissão, é difícil de encarar.

Mas e aí, rolou?
Aí o Zéllus perguntou: “Estão só vocês? Vamos cantar juntos”. Lembro deles dizerem: “vocês querem rock? É, mas vamos tocar baião!”. Fui perceber que cobria algumas deficiências na música com essa coisa do palco, de brincar e tal, o que virou marca registrada para mim. Sem perceber, viramos um grupo de amigos… A gente ficava em casa tocando, eu, Zéllus, Rosy. Era um bando. Não sei como minha mãe aguentava aquele bando de gente em casa. Tenho até algumas gravadas. Depois, entrou a política. Teve muita greve naquela época. Por um lado, eu era o músico e, por outro, tinha essa militância que sempre andava junto. E aquele tempo era complicado, de abertura política, de sentimento único, de saco cheio com a ditadura, ao mesmo tempo com meu pai apavorado com a possibilidade da gente entrar em cana. Fazia parte do Movimento Popular do Sindicato dos Metalúrgicos. Tínhamos que passar pela censura, levar lá para a Receita Federal, duas vias… E se a mulher carimbava ‘não’, [significava que] não aprovava aquela musica e aí a gente não podia tocar.

Um dos amigos com os quais toquei bem no começo também, na época dos festivais, foi o José Simonian. Amizade que se conservou ao longo dos anos e dura até hoje. Com ele tenho em parceria, entre outras, o choro “Saudades da Minha Voz”, canção que tem várias gravações e execuções.

Outro nome importante a ser citado é o Gilson de Melo Barros. Com ele fiz diversas trilhas e espetáculos. Ele é também o autor da capa do primeiro compacto simples da banda Jornal do Brasil, que tem uma versão para “If I Needed Someone”, do George Harrison.

Com o ex-prefeito David Capistrano


Mas havia alguém dos milicos de olho nos shows?
A gente não sabia, mas teve uma vez que um agente da policia virou e falou: “Bom o seu trabalho. Gostei tanto que hoje vou lá ver” (risos). Era a ditadura. Já não estavam mais torturando, até porque já tinha tanta cagada, como o caso [do jornalista assassinado Vladimir] Herzog. E hoje, se olhar para trás, vai ver o absurdo que era: os meninos, universitários, terem que levar as letrinhas que vão cantar para a censura, para ver se uma pessoa completamente idiota não deixaria você tocar aquilo. E me lembro de várias situações idiotas, como quando a gente dizia no show: “A gente queria tocar uma música, mas ela foi censurada”. A gente começou a tocar em muitos shows gratuitos, em sindicatos. Os sindicatos organizavam shows em 1º de maio [Dia do Trabalhador] no Parque [Eng. José] Rebouças todo ano… Lembro dos caras de jaqueta de couro, óculos escuros, aqueles óculos de aviador, filmando. Mas era meio apreensivo. Cheguei a ter problemas de pavor. Já percebi que estava sendo seguido. Aí veio a militância política mais forte, quando entra um outro grupo de gente: Eduardo Sanovicz, o Pardal, Dojival, os irmãos Zanetta, Douglas (Pico), todas pessoas que viraram “fera” na política, que eu tive uma relação muito estreita. E rolavam os festivais, da Primavera do Plínio, dos Metalúrgicos. No começo dos anos 80, entre 80 e 81, a gente ganhava todos. Se não era eu, quem ganhava era o Marcos Canduta. Se não era o Canduta, quem ganhava era o Zéllus. Era um núcleo.

Vocês se encaravam como um movimento?
Não, mas tinha uma coisa muito forte. Primeiro, porque é uma história muito espontânea. Hoje coisas parecidas se rotulam e a marca vira muito maior do que a coisa é. E a gente não tinha marca nenhuma, e as coisas rolavam. A partir daquele núcleo, um monte de gente se profissionalizou e foi trabalhar em várias áreas. Outra coisa curiosa: nenhum de nós trabalhava pelo sucesso. A gente não pensava nisso. Tinha outros compromissos. E são coisas que pessoas que convivem até hoje comigo ainda não entendem… “Pô, mas você é um cara que podia ter gravado”. Eu nunca senti. Nunca levei uma produção minha para uma gravadora. Para não dizer que nunca, depois da [banda] Jornal do Brasil, a gente formou um grupo, e a gravadora recusou, e outra não deu resposta.

Quais?
Era um selo desses, na década de 90 já. Me lembro do cara: “Pô, estou ligando pra dizer que não estamos interessados em você”, coisa assim.

[trata da morte do Zéllus] Eu sou muito próximo daquilo, apesar de ter uma visão mais profissionalizada, de ter conseguido fazer várias coisas, entendo aquilo. Era um cagar e andar que não tinha nada a ver.

Não sou genial como Chico, Gilberto Gil, Paul McCartney. Esses caras enriqueceram porque são geniais. Então qual outra saída que arranjei? Fazer besteira? fiquei num limbo. Não suporto esses caras dizendo que não são compreendidos. Ah, não sou incompreendido, não. Existe uma incompatibilidade. O que eu podia fazer na década de 80, em meados dos anos 80… A gente começou a tocar rock. Aquilo perturbava demais, e a gente queria que tudo aquilo se fudesse. Eu achava aquele rock nacional uma pobreza… Porque a gente vinha, saía da faculdade, a trilha sonora era nossa, era o que tocava nas rádios. A gente trabalhou em rádio, como estagiário. Fui estagiário na Rádio Cultura de Santos, cujo diretor na época era o Beto Mansur. Também trabalhei, mais ou menos no mesmo período, na Cinemateca de Santos, com o Maurice Legeard, colaborando com o arquivo. Lá, com o Maurice, aprendi muito sobre cinema e, principalmente, a paixão pelos filmes. Quanto à rádio, me lembro todo orgulhoso sobre o que tocava lá. Caetano Veloso, Alceu Valença, essas coisas tocavam em rádio, sabe? Aí, de repente, essa cena some pra dar lugar a Paralamas do Sucesso, Legião, que, por melhor que seja, que pro cara jovem com formação musical que vinha com aqueles discos de Chico Buarque da década de 60, 70, aquilo [o rock nacional] era um porre… E até hoje quando o pessoal fala que o Cazuza era um gênio, eu não acho. Quando saía de cena o Paulinho da Viola, o Chico Buarque… A referência da gente era Mutantes. E quando estava terminando a faculdade, me convidaram pra tocar num bar de universitários, que era o Carranca, onde hoje vão construir um prédio…

Para variar…
Ali na Epitácio Pessoa. Ali era uma casa, tocava era o Zé Edu, tocava o Alfredo Gonzalez. Conheci o Biela, parceiro meu, que toca junto até hoje. Só que aí me tornei no profissional da musica. Por causa dos festivais de musica, comecei a ganhar dinheiro. Aí cara, ganhava o festival, ganhava prêmio. Era dinheiro todo dia. Eu, garoto de 19, 20 anos. Dinheiro, dinheiro, cachê, cachê. E eu tinha muita disposição, tocava em três lugares diferentes numa mesma noite. E caí na armadilha, primeira armadilha. Eu, que não queria entrar no mercadão da música, entrei no mercadão da música e virando o “puta” sucesso, e aí a gente formou ainda no Carranca a banda do Jornal do Brasil. Eu já estava formado, e lembro que naquela cena de festivais tinha um grupo chamado Copos e Bocas, e eu achei um baixista bom pra caralho. E o cara é bom, toca super bem, canta super bem, o grupo era legal, mas aí a gente roubou o Luiz (Cláudio de Santos) e formou o trio Jornal do Brasil, que era eu (guitarra e voz), o Biela (bateria e voz) e o Luiz (contrabaixo e cantava). E o que aconteceu? Talvez tenha sido o som mais redondo que tenha feito em vida. E os três cantavam. E a gente fazia vocais, arranjos, era bem bonito. As coisas que as pessoas iam pro bar e se surpreendiam, porque ninguém ia na noite ver timba, violão. A gente entrava com arranjos e vocais. Até brinco que fomos os pioneiros do que o Carlos Bronson faz atualmente. Tinha o tio Alfredo, primo do meu pai, e ele falou: “Vamos montar um bar?” E aí foi a proposta de irmos à Paris, de irmos pra lá. Começavam a pintar convites lá na Europa. Na época, guardamos um dinheiro e alugamos a loja que seria o Torto [MPBar, na Av. Siqueira Campos, 800] hoje. E o Alfredo dizia: “Pô, vamos, vamos”. Essa conversa foi em junho e julho de 84. Aí o Biela – cujo avô dele era mestre de obras – estava aposentado. Levou o avô dele pra dentro do Torto, e erguemos as paredes de lá. O avô dele não tinha condições de trabalhar, mas sabia como fazer, então dizia: “Levanta aqui, levanta ali, mistura a massa, põe mais água”. Levantamos as paredes e fizemos o Torto. Ficamos um mês. Aí o nome foi o pai do Biela que falou: “Tá na cara, é torto, torto, aí já era tortão”. O prédio ficou interditado nos anos 70. A síndica até brincava: “A gente tenta disfarçar que o prédio é torto e você coloca esse nome no bar”. Saíamos o dia inteiro, de noite, de tarde, indo convidar as pessoas fazendo de boca em boca a divulgação. Uns parentes nossos tinham contatos de uma distribuidora da Brahma. Fomos lá, eles mais por pena dos meninos – eu tinha 23 anos – resolveram ajudar a montar. “Vamos lá colocar uma mobília, uma placa luminosa, uma chopeira”. A Brahma colocou mesa e cadeira e uma chopeira e dois freezers. Pra nós era o bar. O que eles tinham a perder? Se não desse certo, fechavam, tiravam de lá. Veio a inauguração. Aquele lugar tinha 600 pessoas no dia. Uma coisa assustadora. O Canal 4 parou, a policia baixou. O Torto virou acontecimento da cidade. A gente colocou o Oswaldo d’A Tribuna, cartunista, para fazer um painel. Então tinha uma série de códigos, de signos, que as pessoas ficaram encantadas com aquilo. O painel que tinha os Beatles, o Pixinguinha, o Cartola, o Jimi Hendrix. Quer dizer, tudo aquilo que pretendia que fosse mesmo, tudo no mesmo lugar, ali. E com certeza o gancho maior era a música, era a banda, e a gente tocava de terça ao domingo. E assim, quando a gente abriu não tinha um ventilador, um ar condicionado, um exaustor. O Torto foi virando. À medida que entrava dinheiro, a gente colocava as coisas: exaustor, etc. Um baita sucesso. Muito maior do que a gente podia esperar. E virou o “point”. E é até hoje um lugar que virou referência da música. Fiquei uns 18 anos no Torto. Foram várias fases, épocas que várias vezes quase fechou. Depois o Alfredo vendeu a parte dele pra mim e para o Biela, aí teve o Luiz Cláudio, que também foi sócio com a mulher dele na época, a Mayra. Até que depois de um tempo teve o Michel, que está aí até hoje, que é mais de negócios, que é muito mais ousado do que qualquer um de nós. Foi ele que construiu o mezanino, que sacou a ligação de cima com a parte de baixo. No Torto, costumo dizer que aconteceram várias coisas e projetos muito legais. Tinham quartas-feiras que a gente fazia rock. Por um ano, tocava cada banda da região, e a gente nunca repetiu a banda – e muitos músicos ali surgiram naquelas quartas-feiras. O Harry tocou, Ricardo Amaral, João Maria, Maurão, essa molecada que fazia o reggae, todas as vertentes do pop feito nessa cidade.

Com Jair Rodrigues (centro) e Caetano Veloso


Na época você também trabalhou no jornalismo?
Não, eu era músico e dono de bar. No primeiro ciclo do ano do Torto, a gente fez um disco da banda, que a gente bancou, pagou, era um vinilzinho. Independente. A verdade é que nessa época o que aconteceu de mais importante na minha vida musical foi que virei amigo do Jair Freitas. E a gente começou a construir uma obra bem legal. Mas também era uma coisa muito irregular, muito louca. O Jair com os problemas dele: bebia demais, muito louco. E eu, no Torto, era uma vida bandida mesmo. Foi. Mas a gente fez muita coisa legal em música. Mas era um esforço muito grande. É engraçado porque hoje, completamente afastado da noite, da música, eu componho mais. O trabalho é muito mais intenso, maior do que quando eu era músico 24 horas por dia. Porque naquele tempo eu devotava naquele dia-a-dia, e não tinha tanta energia para compor. Acho o período da década de 80 um período nebuloso, ruim para a música brasileira. Tem gente que festeja, mas acho aquilo de um empobrecimento. Perdia o tesão, perdia a vontade de fazer música, quando saquei que o único caminho [do rock nacional] era esse. Porque essas coisas viram o pensamento único. Era uma onda muito forte do rock nacional, e era daquilo que dava pra sobreviver. Imagina, aqui em Santos era um circuito de shows de quarteto violado, de MPB. Nessa faixa de classe média, litorânea, Rio-São Paulo, esse estilo que me interessava como criador, sumiu completamente. De um lado, você tinha o rock nacional. Odeio discurso nacionalista, não gosto de levantar bandeira “minha música”. “Meu país” é o cacete. Mas se aqui em Santos você tem três caras que tocam viola de dez cordas, tem 500 moleques que tocam blues. Estou reafirmando para ficar registrado. Pô, viola de dez cordas é um instrumento genuinamente brasileiro: é uma musica linda, maravilhosa. Vem de cada região do pais. Só existe um método no Brasil regular, assim como o de cavaquinho. Bem, no caso de Santos, tem uma cena de samba muito grande, que é muito maior. Sempre digo que essa cidade é de batuqueiros. E eu sinto aqui um preconceito tamanho do pessoal que ia lá no Torto com o pessoal do samba.

Como assim?
Um preconceito enorme. Que hoje, de alguma maneira, tem uma garotada que está quebrando. Hoje tem um monte de garotos jovens que reverenciam e gostam, mas isso não é sempre verdade, e nem todos os nichos, vide os caras que tem Facebook em relação ao Carnaval: “Ah, que lixo na Sapucaí”, assim. Eu vi um monte disso, os sujeitos esculhambando tudo, como se o popular fosse ruim.

Você se refere só aos músicos?
Os músicos e o público.

O que o pessoal reclama do Carnaval são a baderna, as drogas, a sujeira.
Mas a baderna, as drogas e a sujeira são inerentes a qualquer gênero musical, ela parece onde falta Estado. Bom, sei lá onde aparece, não sou sociólogo (risos). Mas então, ai já são valores. Mas sinto isso. Escrevi há muitos anos atrás um artigo sobre preconceito. Ouvia muito de quem fazia samba no Torto. Ouvia muito amigo meu, que frequentava sexta, sábado e falava: “Pô, hoje escurece aí”. Nunca fui intolerante, nem omisso, e criei várias inimizades, porque não conseguia conceber, imaginar a coisa dessa forma. Sentia um puta de um orgulho de ter essa faixa ali, porque o samba veio do afro-brasileiro, e porque isso é uma parte intrínseca da nossa cultura brasileira, e tenho profundo orgulho disso. E existia um olhar. E olha que isso não acabou, não. Um olhar de cima, um olhar seco. Várias coisas extremamente pejorativas que ouvi, principalmente depois de eu Michel, Luiz, enfim, quando a gente abriu o Bar do 3, em 1994.

Você continuava no Torto?
Nos dois. O Bar do 3 foi outra coisa engraçada. A gente faz as coisas e vai perdendo o domínio sobre elas. O Bar do 3 era para ser uma casa de show da grande MPB, e virou uma casa de samba. Com raríssimas exceções de um dia e outro.

Mas ás vezes chegou a ter até rock.
Mais durante a semana, ou no domingo à tarde. Dias alternativos. Mas a casa, a casa mesmo, na sexta-feira e sábado, era samba, que na época estava explodindo. E as duas casas [mais o Mistura Fina, que ficava ao lado] com samba, na época, e estavam cheias. Era a época do pagode. É muito doido você ter isso, essa visão da classe média, em que tiram sarro do pagode e o sertanejo, o pagonejo… Essa gozação… Enquanto, na verdade, são os grandes gêneros brasileiros populares. Se formos procurar, a música sertaneja era a música caipira, local, que se industrializou.

E os músicos da raiz, nem todos chegaram ao auge.
Mas aí é que tá. Ganham com a propagação da coisa, porque a industrialização de qualquer hit faz com que todas as vertentes entrem em destaque. Zezé di Camargo & Luciano, e Chitãozinho & Xororó fazendo sucesso na década de 90, fazem que o Renato Teixeira trabalhe mais, fazem com que o Almir Sater trabalhe mais. Isso é uma sequência em cadeia. Vi artistas voltarem à cena por aparecerem em TV educativa, porque isso chama a atenção a eles. Igualzinho ao que acontecia com a música dita culta. E você começa a ver isso em qualquer nicho. O que é uma Joana ou uma Fafá de Belém, se não é a industrialização que a gente vinha fazendo de Gal Costa, Maria Bethânia e outras? E a própria Gal Costa é a industrialização dela mesma na década de 70, quando ela parte para aqueles boleros e começa a vender milhões de discos. É uma opção de vida no mercado. Quanto mais você industrializa, mais faz sucesso. E a própria classe media assimila a própria música industrialmente, aceita, e tem um puta preconceito com a música regional – essa que vem das camadas pobres da sociedade. Trata aquilo como coisa menor, e não se dá conta do que está consumindo, que também é menor, também é industrializado. Também é tão ruim ou tão bom quanto. Mas o que você acha insuportável em música sertaneja? “Ah, é musica de corno”. E Kid Abelha não é música de corno? Se não tivesse corno, não haveria música. Eles se pegam nas coisas. Isso na verdade é preconceito de classe, que é predominante no viés em qualquer crítica de senso coletivo. Isso eu percebi ao longo da vida inteira, acompanhando música passo a passo. As pessoas [no bar] não entram para conhecer, não abrem a porta, ficam olhando na janela. E eu acho isso muito engraçado. Eu tava com uns músicos viajando. Na época estava uma moda fudida com as músicas que eu cantava. “Ah, que espetáculo”. E aí entrou aquele saxofonista brasileiro Leo Gandelman. E gravou várias músicas, vários discos, que nem [o pianista] César Camargo Mariano, da música instrumental. E cara, é musica de elevador, pop instrumental. Aí estavam os caras: “olha aí, mó som”. Aí entrou o DJ e emendou com o disco da Rosana. Prestem atenção. Abram os olhos e prestem atenção. É praticamente a mesma coisa, a mesma linguagem. É que uma canta e o outro toca. E os dois estão tentando conquistar uma fatia de mercado e ganhar dinheiro. Ninguém ali está fazendo alta cultura. Então não venha com um raciocínio preconceituoso e me empurrar uma coisa como A, e outra como B, porque as duas são como A. Mas tudo isso é revestido de preconceito. E você começa a perceber que isso existe em todos os nichos: literatura, cinema, TV. É engraçado. As pessoas que têm um puta senso crítico aguçado, preconceituoso, com a música e vai para o cinema, e não consegue diferenciar um blockbuster de um filme de arte. Ou até nem entende de blockbuster. E estou falando de gente que não é do senso coletivo, não. É de gente que produz, que faz. Esse desânimo que tenho com o tempo é de lidar com iguais. O público é publico, as pessoas consomem música para se divertir, ir ao cinema para passear, namorar. Estou falando de gente que produz a linguagem, que lida com ela, e tem essa visão altamente preconceituosa, e a raiz é um preconceito de classe: “Ah, eu sou. Ah, eu estudei”. Você é artista, faz projetos com a linguagem, com a coisa, e para sobreviver você precisa é trabalhar com essas coisas – programação de bar, de show à noite, há um conflito enorme. Muito grande. Você começa a ser esquizofrênico. Não tem outra palavra.

E tomava quanto tempo do seu dia você ter que lidar com os dois bares?
O dia todo, ralava muito.

E já estava casado?
No Bar do 3 já estava. Por outro lado, a economia na época tava muito ruim. E tinha que fazer várias coisas para sobreviver. Fazia muitos jingles. Então você tem um recorte esquizofrênico mesmo: você tem que colocar uma banda no palco para tocar, e noutra metade do seu cérebro que você ocupa com mais honestidade, você enxerga um outro mundo. E você começa a se contaminar com aquilo. O meu caso foi esse. Você começa a achar coisas sérias que não são sérias. Você começa inconscientemente muito a agir, a pensar, da mesma forma desses que estou criticando. Nesse caso, não exatamente o conflito de classes, mas uma condescendência enorme. Você começa a acompanhar a carreira do Paralamas do Sucesso. Acho que hoje eles estão legais, o Herbert Vianna é super bacana, mas coisa que lá atrás não me interessava. Tudo bem, não critico quem se interessa. Então, longe desse esquema de ter que programar, ter que criticar, ter que acompanhar. Hoje me sinto muito mais confortável de poder acompanhar o que gosto. Acho que faz algum sentido à minha vida, minha trajetória. Mas tudo, agora, é inegável, que se você quer uma boa literatura brasileira, você tem que ler uns contos vitais, Guimarães Rosa, Machado de Assis, e, para chegar nesses caras, você tem que ter estofo, tem que construir uma base sólida, tem que fazer uma terraplanagem. Você tem que começar a acompanhar a literatura no dia-a-dia. Se não, você não chega lá, se distancia cada vez mais. E são opções da tua vida. São opções que ás vezes são decorrência do seu dia-a-dia. Aí, neste meio tempo, quando abri o Bar do 3, a Ivanir me convidou para escrever uma coluna no jornal A Tribuna, que foi outro ponto de intersecção, porque eu volto a usar a cabeça.

Anos 90…
1993, se não me engano. Comecei a ter ritmo no texto. Porque você fazer critica é uma função que as pessoas enxergam com muito preconceito, porque pensam que o cara é muito chato. Até os caras da crítica têm essa visão destruidora às vezes. Derrubam coisas, com o viés preconceituoso. Lembro que quando a Ivanir me convidou, falei: “tem muito lançamento de disco e não quero perder meu tempo com coisa que não vale à pena. E isso é uma coisa muito legal, a se as pessoas não sabem, é bom deixar registrado: eu nunca sofri nenhuma espécie de interferência na coluna d’A Tribuna. Nunca ninguém disse: “Isso não pode, ou aquilo pode”. Fiz até discurso sobre o Roberto Carlos – o pessoal d’A Tribuna estava promovendo o disco. Esculhambei o disco, e não sofri nenhuma espécie de corte, censura, retaliação, nada. Nunca usei a coluna para fazer proselitismo. Sempre respeitei os limites daquele espaço, de antemão. Mas tipo assim, foram coisas harmoniosas, até porque A Tribuna nunca foi muito a favor do governo do PT daqui de Santos, e eu escrevi elogiando o projeto do disco do Jacaré, que foi produzido pelo NAPS, do [ex-prefeito] David Capistrano. E saiu n’A Tribuna, sem nenhum problema, sem nenhuma espécie de advertência antes, durante ou depois. Mas aí tem os critérios: se você vai escrever para um veículo e um público, você tem que deixar de ser você. Não tem que ser você que gosta. Tem coisas que acho uma delícia e reconheço que ser um lixo.

Quando você começou a escrever crítica, acompanhava outros críticos e especialistas em outras publicações?
Olha, tem uns críticos que acho que são muito bons. Acho o José Ramos Tinhorão excelente. Apesar de não concordar com várias coisas, que são extremamente políticas, e concordar com algumas outras, acho ele um cara muito corajoso, e, acima de tudo, muito informado. Talvez ele seja o único historiador brasileiro que escreve sobre música popular. E uma coisa: música popular é uma arte menor, não é pra ser levada a sério como a maioria dos veículos leva. É uma coisa feita pra se divertir, pra chegar nas pessoas, pra congraçamento. Essa coisa de que existe música boa e ruim, isso é frase feita, né? Tipo, não tem como discutir, são músicas de universos diferentes, e não diminuem o valor, porque cada uma cumpre seu papel social e são coisas absolutamente distintas.

Você escreveu um texto sobre o Michel Teló, no qual o detonou. Mas o sucesso dele não propicia que outros artistas da raiz dele ganhem mais espaço, como você se referiu aos sertanejos?
Não. Acho que é chegar num limite insuportável. Acho que esse tipo de coisa… Se eu for dizer o porquê, é muito difícil de traduzir. Mas acho que esse negócio – escrevo isso no texto – essa cultura ao rés do chão, ao pé, completamente desprovida de inteligência, é um negócio que apela só para os sentidos. Ela começa com a Xuxa. Acho assim, cara, sem medo de exagerar: as pessoas que colocaram isso [a Xuxa] no mercado, precisavam responder criminalmente pelo que fizeram com as nossas crianças nessas últimas gerações. Está aí a dimensão da demência. E isso é você não ter responsabilidade de conteúdo. Acho essa esfera de liberdade de expressão muito discutível. É difícil formar uma opinião a respeito disso, porque começar a proibir, a impedir que certas coisas sejam veiculadas, você dá margem para que outras coisas também não sejam veiculadas. Você fica a mercê de quem está proibindo, de quem tem a caneta. Por outro lado, você consegue tirar certas coisas indesejáveis de circulação.

E o funk carioca lá dos morros?
É outra coisa que as pessoas colocam no caldeirão, como o sertanejo e o samba que as pessoas tendem a criticar. O funk carioca tem coisas extremamente boas e outras muito ruins. E acho que a própria sociedade consegue eliminar o joio do trigo.

E você considera o funk e Michel Teló coisas completamente diferentes?
Sim, até pelas proporções que eles tomam. Funk carioca é produção independente. A galera dos morros faz, produz, e coloca pra tocar como os Racionais. Eles tem aquele CD “Entre o Céu e Inferno”, que é maravilhoso, e é o disco que vendeu 200 mil cópias de mão em mão.

Foi capa da revista Bizz.
[volta a falar sobre Michel Teló] Ter liberdade de expressão em vender um produto que imbeciliza pessoas que estão em estado de formação? E aquilo pega as pessoas, que já são desprovidas de bom estudo, boa formação. E você pega aquele lixo, frágil. Porque aonde não existe aquele lixo frágil você não consegue ir com a Xuxa. E aí você pega aquela coisa completamente demente que te ensina a “tatibitati”, te ensina a rastejar. É controverso isso. “Pô, você tá querendo proibir isso?” Não estou querendo proibir, mas adoraria viver num país sem aquele tipo de coisa. Adoraria viver em um país sem a Xuxa, saca? Porque são coisas que fazem – sem medo de errar -, fazem mal no sentido da formação intelectual das pessoas. Hoje você detecta no jovem. A Xuxa é um sucesso de 20 anos atrás, e no jovem você percebe a imbecilização mesmo. “Ah, mas as pessoas são donas do próprio destino”. Olha, não são. E o papel do Estado é formar as pessoas. E os grandes meios de comunicação social são de concessões públicas. Porque é concessão pública se o cara tem liberdade total pra colocar o que quiser? Então dá, simplesmente. Quem rege é o mercado. É só o cara dar a sobrecarga [financeira] e colocar o que quiser e acabou. E os programas de auditório que humilham as pessoas? Que vão por causa do dinheiro? Essa é uma discussão que a sociedade não tratou anos atrás. A “Noite dos Desesperados”? Hoje tudo bem, democracia em construção, mas hoje tardiamente a gente teria que discutir isso. Porque hoje esses programas invadem os países, tipo Big Brother Brasil, e ficaram relegados. E não são mais programas de sucesso, não são mais hegemônicos. Você vai ver que os artistas hegemônicos dos países desenvolvidos são artistas dignos. Michael Jackson, Whitney Houston, são artistas dignos. Você pode gostar ou não gostar, mas há uma dignidade ali que não dá para discutir, Algo que não há na Xuxa, e que talvez a sociedade expurgue. Mas continuo na opinião pessoal, minha, que isso é um crime. É um crime pior que vários outros que são punidos com vários anos de cadeia. Muito mais prejudiciais, mas isso é controverso e talvez você não coloque (risos).

E os anos 2000?
Tem um outro limbo. Aí o Bar do 3 fechou. A gente não aguentou, era um bar muito grande, maior que a gente.

Mas vivia lotado…
Vivia lotado alguns dias, os outros não. E o preço que custa abrir uma casa dessas é absurdo. E nem todo mundo que está lá dentro, está pagando. E você tem muita concorrência. Olha, eu tenho um amigo que é dono de várias casas lá em Brasília, Jorge Ferreira, é bem conhecido lá. Ele só tem uma casa que tem música ao vivo – a piada que ele faz é “que ela seria um filho drogado”. É a única que não dá lucro, mas ele mantém porque adora, porque é um luxo que ele pode manter. Todos os outros bares não têm música ao vivo. Música ao vivo é cara para você manter. Músico ganha pouco, a maioria, a maior parte dos casos. Quer dizer: você gasta muito, consegue pagar aquela pessoa, o público que devia pagar não ia. E sabe o que tenho pensado, hoje em dia? Que as pessoas têm resistência para pagar. Para pagar disco, para pagar música. Nas redes sociais brincam muito com isso. “Ah, não me peça pra tocar de graça” e o que vejo hoje é que as pessoas têm resistência para pagar essas coisas, porque elas são, de fato, donas dessas coisas. A música que faço, a música que o Chico Buarque faz, a música ao vivo, isso ai já não é propriedade de poucos. Será que isso não merece ser revisto? A gente chegou no ponto de ter os mecanismos para copiar indiscriminadamente qualquer tipo de rock e as pessoas terem acesso a todos esses rocks, e a indústria está se debatendo, porque a gravadora quer cobrar por um produto que as pessoas já têm. E que, na verdade, as pessoas sempre tiveram, é delas. Ninguém faz música sozinho, ninguém faz cinema sozinho. Então você conseguir driblar isso é uma das contrariedades que a gente tem que rever. Agora, como resolver essa pendência?

E os direitos autorais?
Sou totalmente contra, acho até de certa maneira imoral.

Mas se um artista fizer dinheiro com um grande hit que foi feito por você, você tomaria parte daquilo?
Então são essas coisas que são postas pra gente, como o regime capitalista é posto pra gente. Eu acho completamente errado um regime que busca o lucro, que quem tem mais chora menos, que é darwinista, que exclui quem não consegue chegar nele por qual razão for. Esse mesmo regime exclui quem não tem acesso à cultura por várias razões. Na pergunta, você tá me colocando nesse cenário, que é o único em que sobrevivo, e é claro que vou correr com isso, vou querer o que é meu. O direito autoral, vamos refletir. Pegue qualquer obra. Do Guimarães Rosa. Sobre “Os Sertões”. Ele percorreu, fez anotações, conversou com a população, levantou um glossário da linguagem daquelas pessoas, e ele recebe direito autoral pelo livro. A pergunta que te faço é quanto ele deve à população que ele entrevistou para escrever esse livro em direitos autorais? O Chico Buarque que escreveu uma música, quanto ele deve pra quem fez a escala diatômica, a escala cromática da música ocidental? Quer dizer, não existe uma obra que se faz sozinho. Então você receber dinheiro como autor exclusivo daquilo é uma falácia. Você não é autor exclusivo, você partiu de um universo, de uma estrutura desenvolvida por anteriores.

Voltando ao jornalismo…
Quando comecei a escrever n’A Tribuna, comecei a sacar que não tinha perdido a mão. Que eu tinha um texto razoável, que eu conseguia me colocar. E aí foi em 2002 que apareceu o convite do Eduardo Sanovicz, que era o presidente, para ir ao Anhembi, em uma casa de eventos para trabalhar como assessor de imprensa. Fui e me apaixonei pela assessoria de imprensa.

Nisso o bar do Torto e o bar do 3 já ‘eram’?
Aí foi muito louco, porque quando fui trabalhar na véspera no Anhembi, eu e o Michel tivemos uma conversa, e me levantei e saí. Eu falei pro Michel: “fica pra você”.

Mas seu nome ainda está vinculado ao bar.
Está por questões práticas, mas eu não tenho mais nada a ver. Nenhuma participação.

Mas tem gente que associa seu nome aos dois lugares.
Fiquei 18 anos lá, construí uma parte da minha vida, e tem essa referência que é legal também, adoro ir lá uma vez por mês, e toco, e acho engraçado porque é uma outra geração. Acho que o importante é isso: você deixar uma coisa que continua depois.

Considera seu legado?
Eu não acredito em obra individual. Nem Paul McCartney construiu aquelas coisas sozinho, nem só os Beatles, foi tudo um contexto. Por uma razão inexplicável tem pessoas que se destacam mais, que viram referência dos outros. Mas tem outras tão importantes quanto. Por exemplo, meu primo Alfredo é tão importante ou mais neste contexto todo do que eu ou o Biela. Foi ele quem sacou tudo isso, e um ano depois saiu. Foi essa faísca dele, ficou ali. Aquela coisa é uma referência de música boa, legal, que diz “não”.

O Torto já ganhou vários prêmios de bar com música ao vivo aqui na cidade.
Porque a maioria dos lugares, né, você industrializa, e o Torto tem esse grande mérito em dizer “não”. E custa caro dizer não, é difícil, não é fácil. Estou choramingando aqui. [Trata do falecimento de Zéllus] Porque você vai entrar em dificuldades: a primeira vai ser a financeira, que nesse contexto que a gente vive é a mãe de todos as outras. Dinheiro te afeta completamente. Voltando ao Anhenbi, eu mesmo me deparei com outro eu, que de certa forma foi um grade alívio espiritual, intelectual.

Você segue alguma religião?
Não, eu sou ateu. Até brinco que sou devoto de São Gonçalo, o “santo violeiro”, que salva as prostitutas. Porque aí começo a lidar com práticas intelectuais mais intensas.

Você morava em São Paulo quando trabalhou no Anhembi?
Eu ia e voltava. Era fretado, a gente ia numa van.

Você nunca tinha trabalhado com assessoria de imprensa?
Trabalhar com assessoria pesada, em lidar com a grande imprensa nacional diariamente, não. E eu ia super bem com a coisa. Me colocaram no meio da assessoria da [então prefeita] Marta Suplicy. Tinha gente que colocava uns “caralhos” em volta. E eu já era um cara de 40 anos de idade, que não podia contar com a indulgência das pessoas, não era nem menino para começar. E era bem no meio político. Cada dia tinha que corresponder de uma maneira. E, ao contrário do que as pessoas pensam, pelo menos das experiências que tive, até mesmo da oposição, ninguém coloca alguém que não considere confiável e apto numa assessoria de imprensa. Coloca em outros lugares, mas na assessoria de imprensa ninguém coloca, senão você vai se fuder se colocar alguém incompetente. É a tua janela do mundo. Foi muito aprendizado, outro foco, outra dimensão. E aí o Eduardo Sanovicz saiu e foi pra EMBRATUR, e eu ainda fiquei um ano no Anhembi. E nesse um ano a gente fez a comemoração dos 400 anos de São Paulo. E aí foi a grande prova do fogo, por que todo dia tinha que fazer oito, 10, 12, 15 textos. Ligava, falava com jornalistas.

Follow up?
Não dava tempo. Atendia os interessados. A gente colocava os projetos no site, cadastrava, discutia. Acontecia muita coisa. E as declarações da Rita Lee, que falou um monte de coisa engraçada de São Paulo. E ela era a mestre de cerimônias do grande show no Anhangabaú, e a gente tinha que justificar aquelas piadas que ela fazia. Era uma loucura aquilo. Trabalhava sem exagerar, 15, 16 horas por dia. E fora trabalhar no carnaval.

E a vida pessoal?
Nessa época, que cheguei num hotel, coloquei a mala no fim de semana do aniversário de 400 anos. E fui buscar 36 horas depois: eu tinha dormido, tinha tomado banho, coloquei a camisa e voltei. E o Adrian, que era gerente de comunicação, me chamou para ir à Brasília, trabalhar lá com ele e o Eduardo Sanovicz. E era o início do governo Lula, um sonho nosso. Fui para Brasília [2004]. Fiquei seis anos lá.

E a família ficou aqui?
Ficou. Eu ia e voltava, ia e voltava. Minha mulher tinha trabalho como professora, não tinha como [ir morar comigo em Brasília]. E aí esses seis anos… Fora todo cenário do governo Lula, uma assessoria extremamente organizada, e aí a gente falando, e ligavam Folha de São Paulo, Estadão, Rede Globo. Esses veículos ligando diariamente. E a gente tinha todo dia que fazer lançamento de produtos e um monte de coisas.

Fora isso tudo, foi chegar em Brasília e perceber o quanto de alienação eu vivia do resto do Brasil – o quanto é grande, diverso, e o quanto a gente aqui em Santos não conhece isso. Um dos grandes exemplos foi quando ali eu me encontro com a viola de 10 cordas, com o universo da cultura caipira, de Goiás, de Minas Gerais. E a gente na praia, de frente pro mar, de costas para o Brasil. Eu chego em Brasília e constato isso. E apesar de me achar o antenado com as coisas, eu não sabia de porra nenhuma. Vivia num microcosmo aqui. E a gente aqui tende a isso, a ignorar. E a gente volta àquela questão, de três garotos tocarem viola de 10 cordas enquanto outros tocam rock, porque a cultura do hemisfério norte é disseminada de uma forma tão forte, que as coisas aqui do lado não chegam. São coisas tão riquíssimas que a gente perde e não se dá conta disso. E a gente se encontra, se reencontra na infância, e encontra ecos de toda vida da gente com muito mais intensidade que no blues do Mississipi, por mais que aquilo seja bonito, e é bonito, eu adoro, toco, escuto, ouço. Mas quando ouço, ouço na terceira pessoa. Enquanto que na música caipira, ouço de alguma maneira inexplicável: eu me contextualizo, tem vários ecos em minha mente, é a identidade cultural. Então não faço esse discurso de defender a cultura de raiz, porque acho que ela se defende sozinha. Por mais que façam e fazem, ela continua resistindo. Brasília é uma cidade maravilhosa: viver dentro de uma obra de arte, com gente de várias partes do Brasil, de vários sotaques, de várias cores, e você reencontra a música, tudo. Meu avô é gaucho, minha avó é nordestina, que nem a música de Chico Buarque. Foi uma volta em si, foi uma coisa muito emocionante, e os amigos de várias classes.

Julinho e Roberto Viela no Dose Musical 

Fiz uns amigos definitivos para a vida toda. Vinicius Carvalho, de Belo Horizonte. Fizemos músicas juntos. O Beto Nascimento que é do Rio de Janeiro. O Beto que me trouxe uma viola, me ajudou a comprar uma viola, que é amigo do Roberto Corrêa. A gente passou vários sábados na casa do Roberto Corrêa. Luciana Bento, amiga minha, mulher do Beto, que é jornalista, que tem essa visão de jornalista de buscar as coisas, de reportar para a pessoa, sabe? . Nanda Barreto, do Rio Grande do Sul, grande poetisa e ativista, publicou o livro “Brasília – 50 anos em Seis”, junto com outros cinco poetas radicados na capital federal. São pessoas absurdamente importantes, e a gente compartilhou um momento muito vivo, muito bom. E eu volto a dizer que a gente não é nada sem as pessoas. Nesse aprender, nessa troca, nessa coisa. Eu fui trabalhar no Ministério do Esportes. Fui muito amigo do ministro Orlando [Silva, do PCdoB], e a gente tinha uma relação muito verdadeira, porque o Orlando é alguém extremamente criterioso no trabalho, com a militância dele. Isso em 2006.

Era a fase em que o Brasil estava concorrendo para pegar a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Eu fui trabalhar lá exatamente no segundo mandato do Lula. A gente fez a campanha junto. E essa Luciana Bento que era da assessoria e me levou pra lá. E eu tinha essa relação dúbia, porque trabalhava pra ele (Orlando Silva) e era amigo dele. Ele adora samba, é um cara jovem, um cara negro, que tinha consciência dessa negritude dele com essa relação com cultura afro-brasileira e ele dizia que eu devia tocar samba, e me levava às rodas. Mas quando esse cara era ministro, já era outra pessoa absurdamente exigente, e trabalhando debaixo de uma pressão que nunca senti na vida. Daí, brinco com as pessoas que depois dessa experiência, consigo fazer qualquer coisa como assessor. Enfrentamos aquela crise do cartão cooperativo. Sempre falo para as pessoas. A gente tinha o clipping dos Jogos Panamericanos. Sem medo de errar: o clipping dos Jogos Panamericanos era um décimo do clipping do caso da tapioca. Eu lembro que o ministério ficou parado durante semanas pra ficar respondendo sobre isso.

E enquanto isso você continuava escrevendo para A Tribuna?
Sim. E neste meio tempo, um grande amigo meu, que é o Renato Rovae, que é dono da Publisher, da revista Fórum, ele aqui da Praia Grande. E a gente foi se encontrar em São Paulo e através do Renato, conheci várias pessoas novas, como o Rodrigo Savazoni, que é da Casa da Cultura Digital, está aqui em Santos hoje. Quando voltei para Santos, voltei com a viola caipira, com monte de música para tocar. Aqui não tem espaço nenhum para tocar esse tipo de coisa. Você consegue no SESC, onde há grandes entusiastas, mas o público não gosta, não reconhece muito. Não estou choramingando. Eu voltei de Brasília faz dois anos, no começo de 2010. E é uma felicidade imensa voltar para Santos, voltar e trabalhar no Porto, num projeto muito legal – sou gerente de comunicação do Ogmo. Mas ao mesmo tempo, com várias ideias.

As trilhas entram nisso?
Ah, tem coisas que ainda não parei para fazer na vida. As trilhas para teatro, curta-metragem.

Você sempre recebe por esses trabalhos com as trilhas?
Algumas sim, outras não. E quando recebo também, não é muito. São coisas que você faz por são pura paixão. Por exemplo, a peça de rua do Platão Capurro [Filho, diretor da peça “Farrandança”, das companhias Teatro Wídia e Coisas de Teatro], que a trilha é minha. É um espetáculo de rua, super legal, e tem várias referências, e é muito legal mesmo. E fui fazer a trilha. Foi um trabalho que durou um ano, e é um trabalho muito legal. Escrevo para teatro também. Tem um deles que tem a Lei Rouanet, que é “Medo de Escuro”. É a história de um casal, de uma moça que é webdesigner de moda, e vive com um cara que é o George Harrison de uma banda cover dos Beatles. É baseada uma historia real.

Sua?
Minha não, mas que eu presenciei das pessoas com que convivi. E é uma historia toda fundamentada na cultura pop, nas referências do casal, desde a cultura clubber, até as referências do rock da década de 60.

Quem vai dirigir?
O Platão Capurro.

E quando estreia?
Este ano. E é toda construída em flashback, e pautada em canções da cultura pop. É tudo musica mecânica. O resto do elenco é todo cheio de elementos. A personagem principal conversa com outra personagem via Skype, e a plateia vê isso. É cheia de coisas contemporâneas, chiques (risos). Do universo de um casal paulistano.

É sua estreia no teatro como dramaturgo?
É. E eu escrevo de uma forma compartilhada. Vou mostrando, vou cuidando, muito humilde neste sentido. Essa experiência de assessoria de imprensa me deu isso também. Não tenho problema nenhum que mudem as coisas que faço. Não tenho medo nenhum. Estou tão habituado. Acredito na obra coletiva mesmo. Eu volto, reescrevo. Nesse caso, pediram para aumentar o personagem masculino, porque na peça o protagonismo é muito feminino. E isso é engraçado, porque foi o Danilo Nunes que me propôs escrever. E eu disse “não sei”. Depois voltei com a história. Contei e ele disse: “mas é boa, então escreve”.

Quando você começou a escrevê-la?
Quando cheguei em Santos, início de 2010. E quando ia mostrando, eles dizendo, fazendo discussões: “Cresce isso, aumenta aquilo”. Até que chegou num formato adequado.

Quanto tempo de duração?
Tem uma hora, é pequena. E eu achava cinematográfico. Teve gente que achou parecido com “Alta Fidelidade” [de Stephen Frears, baseado no livro de Nick Hornby]. O que lembra é a referência de cultura pop.

E para cinema, roteiro?
Não, nunca fiz. Adoraria fazer. Mas acho cinema muito complicado, muito difícil, muito caro, né? É uma coisa brutalmente industrial. Mas aí quando voltei para Santos, abracei vários projetos, como várias parcerias com o Canduta e a Débora. E a parceria com o Canduta entra na parte da linguagem. Com o Vinícius Carvalho, que faço as músicas das letras deles. Eu tenho vários projetos. Ainda não tocamos, o lance agora é “desovar”. Entre os vários projetos que venho encampando na minha volta a Santos, há a Revista Guaiaó, do fotógrafo e designer gráfico Marcos Piffer, um projeto e parceria que tenho muito orgulho em participar.

Você tem algum CD gravado?
Eu tenho o “Caiçara”, que gravei no aniversário de 450 anos de Santos, que tem várias participações de artistas de Santos, que a Prefeitura bancou. Na época, o Marco Antônio era o Secretário (de Cultura). Foi gravado pelo selo Caipira Pira, de Renato Teixeira. Renato, que se tornou um bom amigo, participa da canção “Passagem do Tempo”, feita sobre um poema de Roldão Mendes Rosa.

Além do Torto, uma vez por mês, você se apresenta em mais algum local com frequência?
Ah, eu toco aqui, ali. Mas tenho a intenção de fazer é esse show com o Canduta e a Débora. E eu canto alguns sambas no meio. É esporadicamente, e sempre é muito legal. A gente fez a abertura do Emilio Santiago no Teatro Coliseu. Foi lindo, muito emocionante. A gente fez show no SESC Santo André, aqui no Aquário, em frente à praia, foi muito legal também. E a gente pensa em fazer um disco. Aí por um lado meu com essa cultura popular, com essa roda de viola, que é fazer no SESC shows com Kátya Teixeira. Ela é uma cantora maravilhosa, produções independentes, tem três discos lindos.

Tocar na noite, nem pensar?
Ah, não quero. Não pretendo mais tocar. Quero partir para esse lado mais autoral, que eu abandonei lá naquele momento pouco antes de abrir o Torto, há muitos anos. Hoje me sinto feliz em poder estar fazendo todas essas coisas.

Escrever um livro?
Não sei. Já recebi até proposta de fazer um livro sobre as crônicas d’A Tribuna, mas não sei até que ponto aquilo lá é variado. Não sei no que vai acrescentar. São muitos textos, daí teria que selecionar e ver o que daquilo interessa. Só os textos sobre músicos santistas? Só os textos sobre cultura popular? Imagina. É um texto por semana, 54 por ano. Eu fiquei muito surpreso quando voltei de Brasília e vi que o meio artístico de Santos deu uma profissionalizada. Vários produtores fazendo coisas maiores, projetos grandes, aproveitando essas leis de incentivo, ProAC, Lei Rouanet, etc. E isso colabora no sentido de fazer mais, de abrir mais possibilidades. E algumas cenas, principalmente a teatral, que está muito mais ousada. E isso é ótimo. E esses grupos, como o Instituto Querô, a Arte no Dique, o Orgone, que são maravilhosos. Que são coisas que você traz pessoas de fora e não acreditam, cara, que existe um espaço como o Rolidei ou a roda de samba do Ouro Verde. Então você tem vários focos que dispõem de meios profissionalizados. Acho esse momento muito legal, aproveitando essa onda econômica, que tem todos seus reveses, suas vantagens, mas que movimenta a cultura. Vejo muito disso.

E a Secult?
A Secult tem uma visão muito ampla e trabalha no limite do orçamento, mas tem muitas coisas discretas que são capitaneadas por ela, desde os cursos que têm lá dentro até as coisas com maiores dimensões, como o desfile de Carnaval. Tudo isso é política cultural que tem sido feita, as tendas da praia… A maneira como ela [Secult] irradia é muito legal. Mas é claro, tem um limite orçamentário muito claro. Então fica muito aquém do que poderia fazer. Mas existe uma coisa muito honesta, muito legal que está sendo feita. Tem três casas de espetáculos muito boas, tem a praça que é mantida pelo SESC, e cada uma dessas coisas fazem a cidade se movimentar à sua maneira. Somados a isso, há grupos independentes. Você tem uma atividade muito mais intensa do que quando saí daqui, 10 anos atrás. Quando voltei, a cidade é outra. E isso tende a crescer. Pô, o trabalho que você faz, por exemplo. Tudo isso acaba criando bônus para o consumidor final, o trabalho seu e do Toninho [Campos, do Cine Roxy] é muito legal para quem frequenta, quem é consumidor da cultura.


Colaboração na transcrição do áudio: Lincoln Spada.



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