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Cláudia Brino e Vieira Vivo

Fotos: Acervo pessoal Cláudia Brino e Vieira Vivo

Um enorme dificuldade para o autor literário, atualmente, é conseguir publicar sua obra. Na Baixada Santista, um casal tem colaborado, muito, para que poetas e escritores superem esse obstáculo: Cláudia Brino, 39, e Vieira Vivo, 57, estão à frente da Edições Costelas Felinas, editora independente de livros artesanais que, em 2010, produziu 2.125 exemplares. “Um a um: impressos, dobrados, costurados, encadernados, refilados e finalmente entregues… E isto, movidos unicamente por idealismo… Só podemos considerar um presente”, celebra Cláudia.

Só no segundo semestre do ano passado foram editados, pela dupla, 25 novos livros na região. “Entre eles a I Coletânea do Prato de Sopa e a Antologia de Haicais Luas e Marés, trabalhos magníficos da professora Mahelen Madureira com moradores de rua”, destaca Vieira.

Juntos desde 2008, os dois possuem longa experiência em literatura, com vários trabalhos publicados. E fazem o que fazem por amor à literatura, às artes. Iniciaram a parceria profissional com a edição da revista Cabeça Ativa, que tem a proposta de, trimestralmente, editar uma “mini-antologia” com um tema específico, unindo poetas alternativos, consagrados e estrangeiros num mesmo contexto informativo. A publicação é voltada para assinantes. E não param por aí. Vieira e Cláudia têm realizado importantes eventos culturais: o Calendário Poético, Narciso Verso em Flor, Noite das Flores, Noite de Humor, concursos de poesias, como o I Prêmio Literário Narciso de Andrade, e outros tantos.

CineZen bateu um papo exclusivo com o casal, que falou sobre a atuação da Costelas Felinas, a revista Cabeça Ativa, inspiração para escrever, a importância da internet para a divulgação dos trabalhos, projetos para o restante de 2011 e muito mais. Sobre o segmento literário santista, afirmam: “O que precisa ser melhorado é a divulgação nos meios impressos; é preciso fomentar pelos meios de comunicação o que os artistas da cidade estão agitando”, diz a escritora. “A produção literária em Santos é, realmente, maior que a média para cidades desse porte. A dificuldade é a divulgação. Os eventos culturais têm de disputar espaço com sinopses de novela, releases de duplas sertanejas e shows de pagode, que são exclusivos da indústria do entretenimento. Meu sonho utópico é um dia abrir o jornal e ver um caderno denominado Cultura Local”, completa o autor.

Interessados em publicar seus escritos, assinar a revista Cabeça Ativa e saber mais sobre as atividades da Costelas Felinas, podem ligar para 13 8139-1967 ou escrever para cacbvv@gmail.com. Mais informações emwww.costelasfelinas.no.comunidades.net. Abaixo, a entrevista completa:

Como começaram seus trabalhos na literatura? Dêem uma ‘geral’ de suas atividades ao longo desses anos.
Cláudia Brino | O início deu-se com publicações de alguns artigos no jornal universitário Pholha, depois houve a publicação de meu primeiro livro de poemas Zona 2000 (1995) e, até agora, já foram lançados mais 13 livros, sendo três participações em antologias. Sou fundadora e coordenadora do Clube de Poetas do Litoral – CPL (maio de 2002) e realizadora de eventos culturais: Arte no Gáudio (evento literomusical em restaurante), Colheita Poética, CineLivro, CinePoesia, Trajes Poéticos, Poesia TV, Áudio CD-Poesia CPL, entre tantos outros… Criadora e diretora do Grupo CPL (performances poéticas), além de diagramadora e editora de revistas literárias e culturais alternativas da região e fundadora da Edições Costelas Felinas (1998), livros artesanais; isto quer dizer que também sou encadernadora (risos). Agora, fugindo da literatura: já realizei três exposições como fotógrafa.

Vieira Vivo | Venho da chamada “geração mimeógrafo”, dos anos setenta, quando editei o folhetim poético Coração do Morro. Fiz vários recitais com Antonio do Pinho, lancei o livroMingau das Almas, em São Paulo, feito pela Jogo Duro Editora, que publicou, na época, mais quatro  livros artesanais. Passei com muita alegria pelo Grupo Picaré, onde participei da I Feira de Literatura Independente, da Passeata Poética, dos “happenings” no Gonzaga, do Picaré na Concha Acústica, da revista e da Antologia Picaré – Uma Dúzia de Poetas, depois segui outros caminhos e, em 2008, retomei a vida literária. Nesses últimos três anos e meio publiquei mais oito livros.

C.B. | A atividade das Edições Costelas Felinas – composta por uma equipe de duas pessoas – é unicamente a publicação de livros artesanais. Em 2010 editaramos 2.125 livros, todos feitos à mão… Um a um: impressos, dobrados, costurados, encadernados, refilados e finalmente entregues… E isto, movidos unicamente por idealismo. Só podemos considerar um presente.

V.V. | Criamos, primeiramente, a revista Cabeça Ativa, que tem a proposta de, trimestralmente, editar uma “mini-antologia” com um tema específico, unindo poetas alternativos, consagrados e estrangeiros num mesmo contexto informativo. A revista é voltada para assinantes. Como produtores culturais, desenvolvemos o Calendário Poético, três concursos de poesias, entre eles o I Prêmio Literário Narciso de Andrade, e realizamos os eventos Narciso Verso em Flor, Noite das Flores e Noite de Humor.

Como surgiu a ideia de criar uma editora independente. E desde a criação, como tem sido o retorno. É possível viver da literatura?
C.B. | A ideia surgiu com a decepção de ver meu primeiro livro, publicado pela Editora Scarpitta de São Paulo, muito mal elaborado, desde a feitura interna até a capa. Para não ficar desestimulada, resolvi aprender encadernação para fazer meus próprios livros e foi exatamente o que fiz. E mesmo com a dificuldade do material, na época bem mais caro e também de difícil manuseio, deu para editá-los. Somente em 2008, com a modernidade e a facilidade a favor, mas principalmente com a entrada do poeta Vieira Vivo, é que a Edições Costelas Felinas passou a ampliar seu trabalho para outros escritores/poetas. Viver da literatura? Digo o seguinte: Ainda trabalho ‘fora’… (risos).

V.V. A edição independente é, antes de mais nada, um artesanato. E poder mesclar uma atividade física com algo criativo é, para mim, uma celebração. Além de contribuir para uma efervescência literária, pois somente no segundo semestre do ano passado editamos 25 novos livros na região, entre eles a I Coletânea do Prato de Sopa e a Antologia de Haicais Luas e Marés, trabalhos magníficos da professora Mahelen Madureira com moradores de rua. Com isso, vamos formando pequenos registros culturais à margem do mercado convencional e o retorno está fora de questão, pois o nosso trabalho é puramente ideológico.

A procura para a edição de livros acontece por parte dos autores ou vocês podem sugerir a publicação de livros a pessoas que admiram?
C.B. | Admirando ou não os textos das pessoas, a procura acontece por parte dos autores – o que ocorre, às vezes, é apenas informarmos que estamos trabalhando com edição de livros artesanais.

V.V. | E como produzimos em pequenas quantidades, as pessoas têm nos procurado e, na medida do possível, tentamos atender a todos.

Vocês são casados. Como acontece a divisão de atividades na editora, na realização de eventos, etc.?
C.B. | Na edições Costelas Felinas eu entro com a parte de diagramação e depois nós dois fazemos a impressão e a encadernação dos livros. O mesmo ocorre na feitura da revista Cabeça Ativa.

V.V. | Em relação aos eventos, procuramos dividir igualitariamente as tarefas, pois o projeto de cada um é concebido a quatro mãos.

O fato de formarem um casal facilita na hora de produzir poemas e na realização de todas as atividades da Cabeça Ativa e das Costelas Felinas?
C.B. | O fato de sermos casal não muda nada na realização dos poemas. A produção continua igual, mas em relação aos outros afazeres é ótimo, porque acabamos dividindo todo o trabalho.

V.V. | No dia a dia temos por hábito dividir e compartilhar tarefas. Em relação à literatura, cada um segue uma linha produtiva independente, embora já tenhamos publicado dois livros em conjunto: Objetos D’Versos e Pérola Verde, especialmente para os assinantes da revista.

Quais são os escritores que vocês admiram?
C.B. | Uma porrada, mas somente um conseguiu me deixar “órfã”, quando terminei de ler seus livros: Lúcio Cardoso.

V.V. | Gosto muito de realismo fantástico, textos obscuros e de estados de consciência alterada. Mas, ultimamente, a prosa não tem me causado tanta emoção quanto a poesia.  Depois de devorar montanhas de livros, chega um momento em que tudo parece muito óbvio.

Livros escritos por Cláudia

Na poesia, vocês consideram necessária que a inspiração surja de algum fato real?
C.B. | Eu, particularmente, não me utilizo deste meio, mas cada um deve seguir sua inspiração, seja ela como for e qual for.

V.V. Em poesia  a linguagem é o objeto e trabalhá-la independe de fatos reais. Mas a visão do autor deve estar, também, sobre tudo o que o cerca.

Nota-se em Santos que há uma grande produção literária. O meio literário é unido na cidade? Há algo que possa ser melhorado?
C.B. | Quando promovemos o evento Narciso – Verso em Flor, contamos com a participação de alguns grupos literários, todos na mesma energia e no mesmo propósito. O que precisa ser melhorado é a divulgação nos meios impressos; é preciso fomentar pelos meios de comunicação o que os artistas da cidade estão agitando.

V.V. | A produção literária em Santos é, realmente, maior que a média para cidades desse porte. A dificuldade é a divulgação. Os eventos culturais têm de disputar espaço com sinopses de novela, releases de duplas sertanejas e shows de pagode que são exclusivos da indústria do entretenimento. Meu sonho utópico é um dia abrir o jornal e ver um caderno denominado Cultura Local, mostrando todos os eventos e, ainda, entrevistas com diretores de teatro, atores, escritores, pintores, pessoal de vídeo, compositores e músicos formando um retrato real de tudo o que está sendo feito na cidade e região.

Livros escritos por Vieira Vivo

É possível viver só de poesia? Comentem as dificuldades do autor em publicar um livro no Brasil.
C.B. | Não, não é possível…  As dificuldades com certeza são financeiras e de venda e distribuição dos livros.

V.V. Ninguém consegue viver só de poesia e as dificuldades são sempre as mesmas.

Hoje há muitos escritores que têm publicado suas obras na internet. A internet colabora até que ponto na divulgação dos trabalhos?
C.B. | A internet conecta o mundo inteiro. Quer divulgação melhor que esta? Na arte o que vale é marcar o nome, deixá-lo registrado nas cabeças das pessoas. Agora, sobre a qualidade do que é exposto, já é outro assunto: cada um escolhe a arte que lhe convém.

V.V. | A internet é uma ferramenta para ampliar contatos e isso acaba por facilitar a veiculação. Nossa revista Cabeça Ativa tem assinantes em seis estados por conta exclusiva da divulgação na rede.

Quais os próximos projetos de vocês? Lançarão livros ainda esse ano? Antologias?
C.B. | Este ano pretendo lançar dois livros: Verbo (poemas), que está sendo roteirizado para o teatro pelo diretor e poeta Ernani Fraga, cuja parceria se estende para o livro Tarde Seca (fotos minhas e poemas dele).

V.V. | Acabei de lançar o Humor Cego e tenho dois outros livros prontos. Um de poemas dedicados somente ao fogo e suas analogias, e outro só de sonetos polimétricos.

Fiquem à vontade para deixar um recado aos leitores do site.
C.B. | Não importa em qual área você se movimenta, o que conta é a continuidade do seu trabalho.

V.V. | Procure se aprimorar sempre e tenha várias alternativas de atuação para que seu trabalho possa atingir um número cada vez maior de pessoas.